O que é a COP30?
- GEPESOI

- 20 de out. de 2025
- 7 min de leitura

AUTORES: Livia Avancini Belli; Pedro Henrique Lins dos Santos e Caio Alves Carlos.
Durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (Rio-92) foi aberta para assinatura a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (CQNUMC ou UNFCCC, em inglês), a qual se configurou em um regime multilateral para tratar das questões ligadas ao aquecimento global. Seus princípios têm como lema “responsabilidades comuns, porém diferenciadas”, que representa o comprometimento de países desenvolvidos a fim de se esforçar para diminuir as emissões de gases do efeito estufa e, devido ao seus status, colaborar com os países em desenvolvimento no que tange à ajuda em recursos financeiros, tecnológicos e de capacitação. Adicionalmente, esse regime se pauta em cinco pilares: mitigação, adaptação, financiamento, tecnologia e capacitação.
A COP, ou seja, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (Conferência das Partes) foi criada pela CQNUMC com o objetivo de implementar medidas que combatam as consequências das mudanças climáticas pelos países que assumiram tal compromisso, o que soma 198 nações que assinaram e ratificaram a Convenção. Mais especificamente, são cúpulas anuais que acontecem normalmente em novembro ou dezembro justamente para discutir aspectos da mudança do clima. Elas reúnem líderes mundiais, cientistas do ramo, organizações não governamentais e alguns representantes da própria sociedade civil para discutir ações que mitiguem os efeitos do aquecimento global.
A 30ª Conferência das Partes acontecerá no Brasil, no estado do Pará, na cidade de Belém. Pode ser uma oportunidade histórica para que o país sediador reafirme seu compromisso em liderar as afirmativas para mitigar as mudanças climáticas e promover a sustentabilidade em nível global. Ademais, o governo tem a vantagem de mostrar seus resultados em relação ao seu investimento em energia renovável, biocombustíveis e agricultura de baixo carbono, além de corroborar com sua liderança em processos multilaterais históricos, como a Eco-92 e a Rio+20. Por fim, os temas que serão discutidos, segundo o Planalto, serão: “1. Redução de emissões de gases de efeito estufa. 2. Adaptação às mudanças climáticas. 3. Financiamento climático para países em desenvolvimento. 4. Tecnologias de energia renovável e soluções de baixo carbono. 5. Preservação de florestas e biodiversidade. 6. Justiça climática e os impactos sociais das mudanças climáticas”.
Por que a COP30 será no Brasil (e em Belém)?
É inegável que sediar uma Conferência das Partes se trate de uma honra e de uma oportunidade única para o território anfitrião, dado que ele obtém a capacidade de expor suas demandas de forma prática aos outros países. Em decorrência disso, o Secretariado das Nações Unidas está constantemente lotado de pedidos de candidatura vindos dos mais diversos Estados ao redor do mundo buscando abrigá-la, e, nos últimos anos, o governo do Brasil não se tornou uma exceção à regra.
De acordo com o Manual para Sediar Conferências das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a presidência de uma COP gira alternadamente entre cinco grupos regionais, sendo eles: Estados Africanos; Estados da Ásia-Pacífico; Estados da Europa Oriental; Estados da América Latina e Caribe; e Estados Europeus Ocidentais & Outros Estados. Sendo assim, até a última Conferência das Partes realizada em Baku, no Azerbaijão, a nação brasileira certificou-se em mostrar protagonismo quanto às questões climáticas para fazer-se uma boa próxima opção, tendo abrigado a 19ª Reunião de Cúpula do G20 com direito a um pronunciamento do presidente Luís Inácio Lula da Silva a respeito da crise climática, por exemplo, bem como divulgado pronunciamentos do Ministério do Meio Ambiente a fim de promover a sustentabilidade nacional.
Como resultado, para os dias 10 a 21 de novembro de 2025, a trigésima Conferência das Partes será realizada sob território brasileiro, mais especificamente na cidade de Belém (PA). É de se pensar que, no entanto, essa afirmação ainda apresenta uma dúvida: por que, em meio a todos os municípios cosmopolitas do Brasil, que a cidade de Belém foi escolhida como anfitriã? Para respondê-la apropriadamente, o secretário executivo da ONG Observatório do Clima inferiu:
“A COP no Brasil seria um momento histórico para o país e para a agenda de clima. E ocorrer na Amazônia é simbólico. Mas o meio ambiente não sobrevive só de gestos bonitos. O Brasil é hoje o país que mais desmata florestas no mundo, e o Pará, o Estado que mais desmata na Amazônia. É fundamental chegar à COP30 com essa situação revertida”.
Fica claro, então, como a cidade de Belém, permeada pela biodiversidade amazônica que tanto é desmatada atualmente por entes contra-ambientalistas, se faz a localidade perfeita para a realização de uma Conferência que tratará, como pauta, justamente das atividades presentes em seu cotidiano.
Quais são os problemas relacionados à COP30?
A realização da COP 30 em Belém aparece como uma oportunidade simbólica, mas também acarreta uma série de críticas, dilemas e riscos que merecem atenção. Um editorial na revista Science, Assinado pelos cientistas Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), e Walter Leal Filho, da Universidade de Ciências Aplicadas de Hamburgo, na Alemanha, alerta que, "com exceção do Ministério de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, virtualmente todos os setores do governo promovem atividades que aumentam as emissões de gases do efeito estufa". O que pode suscitar uma certa incoerência entre o objetivo de sediar uma conferência climática e políticas concretas que dificultam o alcance das metas de mitigação.
Um dos grandes desafios para a COP está relacionado à infraestrutura da cidade, considerada insuficiente para receber um evento desse porte. A capacidade hoteleira é limitada e já se estima que os preços de hospedagem durante a conferência atinjam patamares proibitivos, criando barreiras de acesso para delegações de países com menos recursos, organizações da sociedade civil e comunidades indígenas. Além disso, questões estruturais como transporte urbano, saneamento e serviços básicos permanecem como pontos críticos. Há receio de que a mobilidade da cidade não consiga suportar o intenso fluxo de visitantes. A expectativa é que o fluxo de pessoas piore significativamente o tráfego numa cidade que já lida com congestionamentos severos. O jornal britânico “The Guardian” sugere que “O congestionamento, já ruim, deve se tornar terrível com o fluxo esperado de 50.000 visitantes durante o evento”. Outro problema recorrente é a execução de obras emergenciais em áreas sensíveis, como a construção de uma rodovia de quatro faixas que corta regiões de floresta, levantando críticas de ambientalistas sobre o risco de impactos no ecossistema local, e ainda um certo ceticismo sobre se as obras serão entregues a tempo.
Além disso, o financiamento climático é uma das questões mais sensíveis. Historicamente, muitos compromissos assumidos em conferências anteriores não se concretizaram ou chegaram de forma insuficiente, o que mina a confiança nas promessas de financiamento dos países “desenvolvidos”. O Brasil, como anfitrião da COP30, busca ampliar os recursos destinados à Amazônia e ao combate às mudanças climáticas, mas enfrenta o desafio de transformar promessas em aportes financeiros efetivos. A implementação de medidas como a restauração de áreas degradadas, a transição energética e a proteção de povos originários depende não apenas de vontade política, mas também de investimentos robustos. Sem garantias de financiamento, a conferência corre o risco de se tornar mais uma reunião de intenções, incapaz de oferecer os meios necessários para enfrentar a crise climática de forma prática e consistente.
E agora ? O que esperar para o dia do evento ?
A proximidade da COP30 em Belém abre uma janela de expectativas que vai além do simbolismo de sediar uma conferência climática na Amazônia. De um lado, há a oportunidade de reafirmar o protagonismo brasileiro em pautas ambientais, evidenciando avanços em áreas como energias renováveis, biocombustíveis e agricultura de baixo carbono (PLANALTO, 2025). De outro, persistem desafios estruturais e políticos que podem comprometer a credibilidade do evento e sua efetividade prática.
No plano interno, as críticas quanto à coerência das políticas nacionais permanecem relevantes: um editorial publicado na Science (2025) alerta que, salvo exceções como o Ministério do Meio Ambiente, diversos setores governamentais seguem promovendo atividades que elevam as emissões de gases de efeito estufa. Essa tensão entre discurso e prática torna-se ainda mais visível no Pará, estado que concentra as maiores taxas de desmatamento do país (OBSERVATÓRIO DO CLIMA, 2025). Assim, o êxito do evento dependerá da capacidade do governo brasileiro de apresentar resultados concretos na contenção do desmatamento e na implementação de políticas de mitigação.
No plano logístico, os dilemas são igualmente significativos. A limitação da infraestrutura hoteleira, com preços já considerados “proibitivos” para organizações civis e delegações de países mais pobres (THE GUARDIAN, 2025a), além dos problemas de mobilidade urbana, impõem riscos de exclusão e de ineficiência na gestão do fluxo estimado de 50 mil visitantes (THE GUARDIAN, 2025b). Essas fragilidades podem afetar não apenas a experiência dos participantes, mas também a legitimidade da conferência como espaço verdadeiramente inclusivo.
No plano global, permanece a questão do financiamento climático. O histórico de promessas não cumpridas em conferências anteriores mina a confiança internacional e ameaça transformar a COP30 em mais uma reunião de intenções (FUNDAÇÃO FHC, 2025). Para que o encontro em Belém não seja marcado pela frustração, será necessário articular compromissos financeiros robustos, viabilizando ações concretas de adaptação e mitigação, sobretudo em regiões vulneráveis como a própria Amazônia.
Diante desse cenário, o que se espera do dia do evento é mais do que um palco de discursos simbólicos. Trata-se de um teste de coerência entre a imagem que o Brasil projeta ao mundo e as práticas que adota internamente. Se por um lado há riscos evidentes, por outro, a COP30 oferece a chance de transformar contradições em oportunidades de mudança, consolidando a Amazônia como epicentro das negociações climáticas e reafirmando o papel do Brasil como ator central na governança ambiental global.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
COP30 BRASIL. O que é a COP?. Disponível em: <https://cop30.br/pt-br/sobre-a-cop30/o-que-e-a-cop>. Acesso em: 24 set. 2025.
PLANALTO. COP 30 no Brasil. Disponível em: <https://www.gov.br/planalto/pt-br/agenda-internacional/missoes-internacionais/cop28/cop-30-no-brasil>. Acesso em: 24 set. 2025.
NAÇÕES UNIDAS. Manual para Sediar Conferências das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. Disponível em: <https://oei.int/wp-content/uploads/2025/01/how-to-cop30.pdf>. Acesso em: 25 set; 2025.
BARCELLOS, Franciéli. “A COP30 será nossa última chance de evitar uma ruptura irreversível no sistema climático”, convoca Lula na última sessão temática da Cúpula de Líderes do G20 Brasil. Disponível em: <https://www.gov.br/g20/pt-br/noticias/a-cop30-sera-nossa-ultima-chance-de-evitar-uma-ruptura-irreversivel-no-sistema-climatico-convoca-lula-na-ultima-sessao-tematica-da-cupula-de-lideres-do-g20-brasil>. Acesso em: 25 set. 2025.
SECRETARIA DE COMUNICAÇÃO SOCIAL. “Proteger o meio ambiente é salvar vidas”, diz Marina Silva em pronunciamento à nação. Disponível em: <https://www.gov.br/secom/pt-br/assuntos/noticias/2024/06/201cproteger-o-meio-ambiente-e-salvar-vidas201d-diz-marina-silva-em-pronunciamento-a-nacao>. Acesso em: 25 set. 2025.
OBSERVATÓRIO DO CLIMA. Lula indica Belém como sede da COP30. Disponível em: <https://www.oc.eco.br/brasil-apresenta-candidatura-de-belem-como-sede-da-cop30/>. Acesso em: 25 set. 2025.
FUNDAÇÃO FERNANDO HENRIQUE CARDOSO. A um ano da COP 30, quais são os desafios fundamentais?. Disponível em: <https://fundacaofhc.org.br/debate/a-um-ano-da-cop-30-quais-sao-os-desafios-fundamentais>. Acesso em: 25 set; 2025.
THE GUARDIAN. Will Cop30 in Belém help or harm the Amazon?. Disponível em: <https://www.theguardian.com/environment/2025/apr/25/brazil-host-cop30-climate-talks-amazon>. Acesso em: 25 set; 2025.
THE GUARDIAN. UN holds emergency talks over sky-high accommodation costs at Cop30 in Brazil. Disponível em: <https://www.theguardian.com/environment/2025/jul/30/un-emergency-talks-sky-high-accommodation-costs-cop30-brazil>. Acesso em: 25 set; 2025.
SCIENCE. COP 30: Brazilian policies must change. Disponível em: <https://www.science.org/doi/10.1126/science.adu9113>. Acesso em: 25 set; 2025.




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