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A ascensão do cinema negro

  • Foto do escritor: GEPESOI
    GEPESOI
  • 11 de mai. de 2020
  • 5 min de leitura

Atualizado: 18 de mai. de 2020

A UNESCO estabeleceu, em 1998, o Dia Internacional de Lembrança do Tráfico de escravos e sua abolição como uma forma de toda a população mundial aprofundar sua reflexão diante desse tema. O estabelecimento dessa data tem, como principal objetivo, trazer à tona as atrocidades que envolveram o tráfico de escravos e também, refutar preconceitos e estigmas estabelecidos à população negra que, ainda hoje, continuam a afetar essa parcela.

O cinema, possuindo o potencial de influenciar dinâmicas sociais e políticas e, sobretudo a opinião pública, sempre envolveu interesses de poder conforme quem está produzindo, quem o financia e a linguagem utilizada - como bem colocado pela doutora em Estudos Estratégicos Internacionais pela UFRGS, Cristine Koehler Zanella. Associando os dois fatores, dentre as formas de lembrança que vem ganhando cada vez mais visibilidade na era contemporânea, o cinema negro emerge no objetivo de buscar representatividade, sobretudo como um ato político.


Assim, a conjuntura internacional atual põe em cena a necessidade de evidenciar modos de representação socialmente construídos e reproduzidos durante séculos, como é o caso cinematográfico - em que se pode fazer uma analogia ao conceito de hegemonia cultural gramsciano, que atribui a quem possui o poder da representação a dominação ideológica sobre os que não possuem, em uma sobreposição de seus interesses. Não se pode deixar de considerar também que, produzir a sétima arte é um feito tipicamente elitista, visto que o acesso à produção e a distribuição do audiovisual muitas vezes pode não ser barata nem fácil.


Nos Estados Unidos, essa vertente do cinema iniciou sua representação neste universo com a implementação de programas de inclusão de estudantes periféricos na UCLA (Escola de Cinema da universidade da Califórnia), por volta de 1970. A população negra, até então, estava marginalizada nessa indústria, e a presença desses alunos permitiu a chamada L.A. Rebellion, que produziu pelo menos 73 filmes. Ela foi responsável pela ascensão da vertente, envolvendo diretores negros com elenco inexperiente e negro e, principalmente, colocando em foco histórias de negros nunca antes contadas.


Uma das principais marcas desse movimento é a intensa presença de manifestações culturais negras - como o jazz, o rap e o uso de instrumentos de percussão e tambores africanos, para citar algumas reconhecidas no campo da música - fazendo com que a base criada por essas histórias tivesse influência direta na indústria do cinema atual, como se percebe com o aumento da visibilidade negra. Essa, pode ser evidenciada por Barry Jenkins, Jordan Peele, Steve Mcqueen, lee Daniels e John Singleton, por exemplo, ainda que eles sejam os únicos diretores negros a serem indicados ao Oscar de melhor filme.

No caso brasileiro, considerando a colonização e o crime hediondo da escravização transatlântica que por séculos vigoraram, subsistem influências determinantes no modo de representação da população negra em todos os âmbitos da vida social nas Américas, o que, inevitavelmente, se reflete no cinema nacional - em um problema de representação de negras e negros nas telas como a continuidade de um racismo epistêmico e estético com origem nos traumas coloniais, como bem colocado por CORREA, no portal Justificando.

Não consistindo na própria representação da realidade, o cinema é, no entanto, uma criação advinda dela própria que, voluntariamente ou não, reproduz o imaginário da sociedade sobre determinado assunto, sobre um ponto de vista específico. Este paradigma estético, portanto, muito tenha a dizer sobre questões políticas e culturais, demonstrando como ainda é escasso o acesso da população negra a estas discussões.


Estudos promovidos pela Agência Nacional do Cinema (ANCINE) e pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA) atestam que, de 2002 a 2012, apesar de constituírem mais da metade da população (50,7%), os pretos e pardos representam apenas 20% dos atores que atrizes que atuaram em papéis de destaque nos filmes brasileiros de maior bilheteria. Ao se considerarem as intersecções, envolvendo o viés de gênero se apresenta de maneira também determinante, onde apenas 4% do elenco principal destes filmes foi composto por mulheres pretas e pardas, torna-se nítida a discriminação dupla sofrida pela mulher negra: a de raça e a de gênero. Ainda, na categoria de direção, 2% dos diretores são do gênero masculino e negros e, com nenhuma mulher negra. Na categoria de roteiristas, 4% dos roteiristas são negros, e também não há nenhuma mulher negra. De modo geral, também há pouco espaço para representação de orientações sexuais diversas, conforme a mesma fonte.


Contudo, apesar dos esforços exercidos para garantir um espaço na indústria cinematográfica, a população negra ainda é extremamente secundarizada neste ramo. Marcados pelo conceito de “white savior” ou “salvador branco”, muitos filmes atuais acabam por beirar o racismo nas representações, quando expõem a realidade do preconceito racial por uma visão privilegiada de algum personagem branco. Alguns exemplos de obras com esse caráter são “O Sol é para Todos” (1962) e dois filmes vencedores do Oscar do Melhor Filme: "Histórias Cruzadas" (2011) e "Green Book: o Guia" (2018). O comum a todos esses longas é a linha narrativa de uma pessoa branca descobrindo e "resolvendo" o problema da disparidade racial, perpetuando ideias de debilidade por parte dos negros e reforçando este fardo do homem branco.


Outra reprodução da desigualdade muito presente nos filmes reside no concedimento de notoriedade por papéis relacionados apenas à escravidão ou à pobreza para atores e atrizes afrodescendentes, reiterando sua impossibilidade de atuação em personagens cotidianos. Exemplos muito claros dessa realidade podem ser vistos em “12 anos de escravidão” (2013) e “Diamante de Sangue” (2006). Em contrapartida a essa perspectiva está o diretor Jordan Peele. Responsável por notáveis obras como “Corra!” (2017) e “Nós” (2019), Peele ficou conhecido por declarações de que não era do seu interesse colocar brancos como protagonistas de seus filmes em papéis, de fato, cotidianos.


Sendo assim, fica evidente como é possível fugir dos padrões de escravidão e ainda ter um roteiro coerente, que não perpetue desigualdades raciais, com protagonistas negros. Tanto Hollywood como o cinema brasileiro estão recheados de talentos, nomes como Taís Araújo, Viola Davis, Mahershala Ali, entre outros, são alguns exemplos dos que merecem destaque além dos personagens escravos e pobres.


Indicações


The Homesteader (1919) de Oscar Micheaux - surge em oposição ao “O Nascimento de uma Nação”;


Borrom Sarret (1963) de Ousmane Sembène - primeiro filme dirigido por um africano negro na África Subsaariana;

Uma voz nas sombras (1963) de Ralph Nelson - filme responsável pela premiação do primeiro ator negro ao Oscar de Melhor Ator;

Alma no Olho (1973) de Zózimo Bulbul - primeiro curta-metragem assumidamente negro no Brasil;


12 anos de escravidão (2013) de Steve Mcqueen - primeiro filme dirigido por um negro a ganhar a categoria de Melhor Filme no Oscar;


Um limite entre nós (2016) de Denzel Washington;


Moonlight: sob a luz do luar (2016) de Barry Jenkins;


Corra! (2017) e Nós (2019), de Jordan Peele;


Infiltrado na Klan (2018), de Spike Lee.



REFERÊNCIAS


CORREA, Marco Aurélio da Conceição. JUSTIFICANDO. Quem tem medo do cinema negro? Disponível em: http://www.justificando.com/2018/09/03/quem-tem-medo-do-cinema-negro/ Acesso em: 20 ago. 2019.


OPERA MUNDI. Cinema ajuda a entender dinâmicas políticas e relações entre países, diz pesquisadora. Disponível em: https://operamundi.uol.com.br/politica-e-economia/43373/cinema-ajuda-a-entender-dinamicas-politicas-e-relacoes-entre-paises-diz-pesquisadora Acesso em: 20 ago. 2019.


TOSTE, Verônica; CANDIDO, Marcia Rangel. GEMAA. O Brasil das telas de cinema é um país branco. Disponível em: http://gemaa.iesp.uerj.br/infografico/infografico1/ Acesso em: 20 ago. 2019.




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