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BLOG DE MAIO


A Diplomacia Brasileira e o Relacionamento Lula-Trump.


INTRODUÇÃO

Dentre os encontros programados pelos Estados Unidos ao longo do mês de maio, a repercussão favorável acerca da conversa entre Donald Trump e o presidente Lula ganhou espaço nas notícias e se destacou a nível internacional. O evento reacendeu pautas como a exploração de terras raras, a pressão econômica pelo tarifaço e o desdobramento do crime organizado. A reunião, sobretudo, trouxe à tona uma antiga discussão sobre a postura da diplomacia brasileira, as suas estruturas e a sua importância tanto para a estabilidade interna do país quanto para o cenário externo, de tal modo que é amplamente elogiada e referenciada. 

Perante o presente momento, em que as relações entre Brasil e Estados Unidos se apresentam fragmentadas e incertas, é imprescindível uma estratégia calcada no alicerce histórico da conduta diplomática nacional em conjunto à análise das investidas unilaterais e protecionistas da nação norte-americana. Assim, a presença de Lula em Washington e a imediata aprovação deste ato demonstram, por alto, um alinhamento desses princípios ao plano político governamental. Além disso, como dito antes, outros tópicos intrínsecos nesse encontro possuem sua própria relevância, reforçando o marco do acontecimento.


ATUAÇÃO HISTÓRICA DA DIPLOMACIA BRASILEIRA

Como ponto de partida na introdução à atuação histórica das relações políticas internacionais do Brasil, destaca-se a posição majoritariamente defendida pela diplomacia brasileira: defesa e promoção da cooperação internacional em favor do desenvolvimento dos países menos avançados. De acordo com Almeida (2025), a diplomacia brasileira, desde os anos 1930, teve como única ideologia o desenvolvimentismo. Entende-se, portanto, que o Estado nacional, em sua posição de neutralidade pelas boas relações políticas e econômicas estabelecidas com países estrangeiros, utilizava de sua diplomacia para defender o direito ao desenvolvimento como o elemento central das instituições de cooperação internacional, sendo, com efeito, um dos principais defensores da corrente do multilateralismo. Ato contínuo, pontua-se que a diplomacia brasileira permaneceu a lutar por medidas favoráveis ao crescimento econômico, acesso à tecnologias e cooperação bilateral, regional e multilateral em favor desses objetivos (Almeida, 2025), isto é, até a intervenção da ditadura militar, que trouxe divergências à corrente de pensamento populista-progressista antes adotada pelo Estado brasileiro.

Com o fim da ditadura militar brasileira em 1985, década marcada, inclusive, pela promulgação da Constituição Federal de 1988, que trouxe à política nacional conceitos de “soberania”, “Direitos Humanos”, “desenvolvimento social e econômico”, entre outros, esse momento consolidou também um cenário de priorização da consolidação da democracia, o fortalecimento das relações internacionais e a ampliação da autonomia nacional no cenário internacional (Gesteira, et al, 2024). Nesse momento, as relações entre Brasil e Estados Unidos, existentes desde o século XIX – quando, do advento da República no Brasil, vem a afirmar-se o ideal republicano propagado pelos Estados Unidos, abrindo portas para a realização de acordos econômicos de exportação e importação entre os países, consolidando um intercâmbio comercial entre as Américas, oposto ao prévio monopólio europeu, como destacado pelo Manifesto Republicano de 1870, em que se diz: “Nós somos americanos e queremos ser americanos!” – passaram por transformações significativas, já que as relações políticas e econômicas de ambos os países nem sempre se encontravam alinhadas, encontrando barreiras diplomáticas, financeiras e sociais.

Foi no final do século XX, nos governos de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso, que houve uma aproximação marcada pela abertura econômica e pelo diálogo político, embora o Brasil mantivesse posições independentes em questões estratégicas. Ao mesmo tempo, o fortalecimento do Mercosul demonstrava a intenção brasileira de diversificar suas parcerias internacionais. As políticas de mercado continuaram ativas, pois ambos os países jamais deixaram de negociar ou dialogar um com o outro, de modo que a balança comercial entre os países apenas cresceu durante a década de 1990, apesar das mútuas queixas às barreiras comerciais impostas pelos dois. Já durante os governos de Lula (2003 – 2010), a diplomacia brasileira adotou uma postura mais ativa na busca por protagonismo global. O país fortaleceu relações com economias emergentes e ampliou sua participação em fóruns internacionais, sem romper os laços com os Estados Unidos, que, a partir de 2009, entraram em uma crise político-econômica advinda das baixas no mercado imobiliário e quebra na bolsa de Nova Iorque. Foi apenas em 2015 que as posições se inverteram, momento em que o Brasil entrou em crise e os Estados Unidos se recuperaram da recessão.

Nos anos seguintes, observou-se uma alternância entre maior aproximação e maior autonomia em relação aos Estados Unidos. Enquanto o governo Jair Bolsonaro promoveu forte alinhamento político com Washington, o retorno de Lula à presidência reforçou uma política externa voltada ao diálogo multilateral e à diversificação de parceiros. Dessa forma, a diplomacia brasileira pós-redemocratização caracterizou-se pela busca de equilíbrio entre a cooperação com os Estados Unidos e a preservação da independência nacional na condução de sua política externa.


ANÁLISE DA POSTURA DIPLOMÁTICA DO GOVERNO LULA III

Antecedentes: Gestão Bolsonaro (2018-2022)

Em 2019, a chegada de Jair Bolsonaro à presidência provocou profundas alterações nos rumos da política externa brasileira. A eleição do agora condenado veio na esteira de um crescimento internacional da extrema direita, com eleições de seus representantes ao redor do mundo. Donald Trump foi eleito em 2016, Erdoğan se reelegeu em 2018, e movimentos políticos de extrema direita, a exemplo do Rassemblement National de Marine Le Pen e Fratelli d'Italia de Giorgia Meloni, se fortaleceram. Essa configuração, além de sintomática em termos de política interna, representou um movimento de reconfiguração do sistema internacional. Pautas como desmonte democrático, enfraquecimento das instituições internacionais e nacionalismo exacerbado se tornaram recorrentes, e, claramente, o Estado brasileiro não passou imune por tal conjuntura.

Caracterizada histórica e constitucionalmente por uma postura multilateral, universalista e não intervencionista (Brasil, 1988), a política externa brasileira (PEB) sofreu uma guinada brusca em sua condução entre 2018 e 2022. O então recém-chegado presidente não tardou em estender sua posição política à condução dos assuntos internacionais, marcando-os com seu viés ideológico e promovendo uma reorientação diplomática. De acordo com Hilst e Maciel (2022), a diplomacia de tal período pode ser caracterizada em três eixos estruturantes - núcleo político-ideológico, administração econômica liberal-conservadora e complexo de segurança e defesa. Para este artigo, escolheu-se focalizar o aspecto político-ideológico, entendendo que o fator doutrinário permeou e orientou grande totalidade das diretrizes externas da gestão bolsonarista.

As características ideárias do governo funcionaram como base do projeto de poder de Bolsonaro, promovendo o aprofundamento de vínculos entre atores internos e organizações identificadas com a extrema direita internacional. No plano global, esse pilar manifestou-se por meio de um ativismo anti-globalista, com alinhamento ao governo de Donald Trump e uma aproximação com regimes conservadores e nacionalistas. Regionalmente, essa orientação priorizou a desconstrução de iniciativas e compromissos vinculados à América Latina, resultando em uma postura de isolamento local e na substituição de princípios diplomáticos universais por bandeiras ideológicas. Em consequência, houve uma redefinição das prioridades diplomáticas brasileiras, privilegiando afinidades ideológicas em detrimento do pragmatismo historicamente característico do Itamaraty. 

Tal orientação gerou profundos impactos alastrados desde o contexto doméstico até ao posicionamento internacional do país. Um importante exemplo foi a condução desastrosa da Pandemia de Covid-19 marcada pelo negacionismo, anti-cientificismo e ideologização de questões de saúde pública. A trágica conjuntura não somente vitimou mais de 700 mil brasileiros, mas também provocou verdadeiro vexame transnacional, incluindo o fechamento de fronteiras por parte de Estados vizinhos ao Brasil. Esse caso representou um revés na conduta de aquiescência de normas internacionais por parte do governo federal brasileiro, o que denotou desdém pelas organizações multilaterais e pelos possíveis impactos transfronteiriços da inconsequente política doméstica brasileira.

Paralelamente, Bolsonaro e seus cúmplices fomentaram o recrudescimento do isolamento regional do país. Apesar de procurar preservar os mercados sul-americanos já alcançados, o Brasil negou altivez para aprofundar os laços locais e estabelecer novos vínculos em parceria com seus irmãos continentais. O governo em questão também formalizou a saída do Brasil da União de Nações Sul-Americanas (UNASUL) em 2019, criticando o bloco por considerá-lo ideologicamente alinhado à esquerda (Alves, 2023), além de individualizar e militarizar a gestão de fronteiras na Amazônia e nas divisas com a Venezuela, ao invés de fomentar diálogos multilaterais. Esse fato depauperou a postura de liderança regional galgada pelo Estado brasileiro desde o final do século XIX e deixou de escanteio negociações circunvizinhas importantes, a exemplo das relacionadas ao fortalecimento e expansão do Mercosul e ampliação de negociações de cooperação em proteção e defesa, como o combate ao narcotráfico regional.

Em contrapartida, houve fortalecimento da relação com os Estados Unidos justamente em termos de segurança e de operações militares, especialmente via Comando Sul. Além disso, realizou-se a busca por cooperação tecnológica e de inteligência com outros governos ideologicamente aproximados, como Índia, Emirados Árabes e Israel, este último representando um importante ponto de inflexão. Reconhecida pelo apoio à causa palestina e críticas à ocupação israelense, a posição diplomática brasileira sofreu com declarações feitas por Bolsonaro que intencionavam a transferência da embaixada do Brasil em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. Apesar de tais planos não terem sido concretizados, o fato dessas declarações terem sido feitas e que, em meios de política internacional, palavras possuem peso e consequência, demonstram mais uma vez o direcionamento ideológico das diretrizes externas do bolsonarismo.

Por fim, também cabe ressaltar um dos principais eixos de atuação internacional brasileira que sofreu com a presidência de Jair Bolsonaro: o posicionamento do país como potência ambiental global. A administração abordou a questão ambiental seguindo uma postura  negacionista e ideológica, tratando o aquecimento global como uma maquinação marxista e promovendo o desmonte de instituições e políticas públicas do setor. Internamente, o governo desqualificou dados científicos e negligenciou desastres como as queimadas na Amazônia e no Pantanal. Em termos internacionais, houve  a suspensão de recursos do Fundo Amazônia, a desistência de sediar a COP-25 e a imposição de obstáculos comerciais por parte de países europeus. Essa configuração resultou em um profundo isolamento diplomático e na perda do protagonismo internacional do Brasil em tal seara, enfraquecendo ainda mais a PEB.

Assim sendo, essa construção ideológica, ao longo dos quatro anos de mandato, levou a uma metamorfose da diplomacia brasileira, conduzindo-a a um isolacionismo anti-globalista orientado pelas doutrinas da extrema direita, o que corroborou para a fragilização da imagem internacional do Brasil. A aproximação política quase cega com interesses estadunidenses se alinharam a um processo internacional de enfraquecimento democrático, bem como corroboraram para o desmonte de diretrizes ambientais e para a ascensão do negacionismo e anti-cientificismo. Em suma, esse cenário representou uma chaga na política externa brasileira e levou ao desmonte de tradições diplomáticas, a exemplo do abandono do multilateralismo e de vínculos bilaterais, queda no protagonismo regional e perda da força externa brasileira.

Resgate Diplomático, Adaptações e Recalibragem

Gestão Lula III (2022-)

Em 2023, quando Lula chega ao poder para o seu terceiro mandato, a imagem da conceituada diplomacia brasileira estava maculada. Não apenas, o novo presidente assumiu seu ofício em uma conjuntura internacional marcada pela intensificação da crise do plurilateralismo e das instituições internacionais, já observadas anteriormente, e pelo avanço de tensões entre EUA e China. Como aponta Lopes (2024), nesse contexto, Lula da Silva se viu obrigado a adotar uma postura mais moderada em relação à defesa da autonomia brasileira, comparativamente aos seus dois primeiros mandatos. Ao mesmo tempo, procurou manter uma equidistância pragmática entre grandes potências, adotando uma posição de não alinhamento ativo. Dessa forma, a ação diplomática Lula III teve como tarefa reconstruir uma política externa respeitável e buscar assegurar nova inserção internacional para o Brasil, enquanto se adaptava em uma nova organização do xadrez internacional.

Já em seu discurso de posse, o chanceler Mauro Vieira (2023) destacou a necessidade de uma condução externa multissetorial, capaz de articular dimensões econômicas, climáticas, científicas e de promoção dos direitos humanos e de igualdade de gênero. Conjuntamente, situou essa agenda em um panorama marcado pelo agravamento das tensões entre potências e pelos desafios decorrentes do enfraquecimento da projeção externa brasileira nos anos anteriores. Diante desse cenário, o embaixador enfatizou a necessidade de reposicionar o Brasil mundialmente, através do fortalecimento das relações com África, Oeste Asiático, Ásia-Pacífico, Europa e Estados Unidos. Já no âmbito regional, ressaltou a importância de recuperar e ampliar os mecanismos de cooperação política na América Latina e no Caribe e reforçar os vínculos diplomáticos com os países vizinhos. 

Isto posto, o governo voltou a jogar luz sobre o cenário internacional e retornou às reivindicações de reformas na ordem mundial e no Conselho de Segurança da ONU, dando novo fôlego à importância das instituições transnacionais. O país voltou a ter importante papel em órgãos multilaterais ao assumir a presidência temporária do CSNU em outubro de 2023, a liderança do G20 entre 2023 e 2024 e a direção rotativa dos BRICS no ano de 2025. Além disso, a diplomacia presidencial, marcada pelo envolvimento direto de Lula, resultou em um volume recorde de viagens internacionais.  De acordo com dados da Secretaria de Comunicação Social (2025), nos três primeiros anos de governo Lula III, o presidente realizou 61 missões oficiais ao exterior, recebeu 32 chefes de Estado e de governo e participou de 190 encontros bilaterais à margem de eventos multilaterais, atividades destinadas a reconstruir a imagem do país no exterior e alavancar discussões para a garantia dos interesses nacionais.

No plano regional, o Brasil passou a promover a reabilitação dos vínculos sul-americanos ao fortalecer organismos como a CELAC (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos) e voltar a integrar a UNASUL, em uma tentativa de retomada de sua liderança no entorno estratégico. Ademais, o novo empuxo dado à cooperação regional - além das polêmicas políticas tarifárias estadunidenses - possibilitou o fortalecimento do Mercosul, o que desaguou na assinatura de um acordo de livre comércio com União Europeia no início do ano de 2026. Sob liderança brasileira, o Mercosul também aprovou a Estratégia de Combate ao Crime Organizado Transnacional (EMCCOT) e inaugurou o Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia (CCPI Amazônia), integrando forças de segurança de países da região e demonstrando o esforço brasileiro em voltar a sua posição de coordenação  regional.

Ademais, houve o retorno da centralidade da temática ambiental, em uma tentativa de reposicionar o país como uma liderança na economia verde e na governança climática global. O país sediou, em Belém, a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP 30), em novembro de 2025. O evento concentrou negociações globais sobre transição energética, financiamento climático para mitigação de emissões e conservação da Amazônia. A reunião também levou à aprovação do "Pacote de Belém", o que simbolizou o reconhecimento do papel estratégico do Brasil em tal seara, levantando pautas como o desenvolvimento social e a justiça climática. Entretanto, cabe ressaltar como, em âmbito interno, o peso do agronegócio e do setor extrativista brasileiros continuam a afetar as possibilidades de manobra da diplomacia ambiental brasileira, ao passo em que, internacionalmente, a crise de multilateralidade dificulta a adoção de políticas climáticas e ambientais alinhadas e eficazes.

Outro desafio desse período foi a gestão da relação bilateral com os Estados Unidos sob a nova administração de Donald Trump. Como já abordado, Bolsonaro conseguiu construir relações estáveis com o governo estadunidense mediante uma postura condescendente, configuração que se alterou com a posse de Lula e mudança do cunho ideológico do governo. A priori, o atual chefe do Executivo muniu-se de falas duras frente a temas geopolíticos sensíveis, como críticas à política de genocídio palestino por parte de Israel e de equiparação de responsabilidades entre Rússia e Ucrânia no conflito do leste europeu. Entretanto, novos desenlaces da política e economia internacional, como pressões estadunidenses, fizeram com que o atual chefe do Executivo recalibrasse sua rota inicial de protagonismo assertivo em conflitos globais e adotasse uma postura mais discreta, atenuando seu tom discursivo (Marra, 2025).

Exemplo disso foi a postura adotada pelo governo brasileiro para lidar com a implementação do tarifaço trumpista em agosto de 2025, que combinou negociações técnicas e diálogo diplomático abrandado para possibilitar a revogação de parte das taxas estadunidenses sobre produtos brasileiros. O tom do presidente brasileiro frente a Trump também moderou-se a partir do primeiro contato entre os líderes nos bastidores da Assembleia Geral da ONU, em setembro de 2025, que resultou em comentários amistosos de ambos os lados. Tal encontro abriu portas para reuniões futuras, como o primeiro contato oficial entre os dois líderes durante a Cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) em outubro de 2025 e a recente viagem feita por Lula aos EUA em maio de 2026.

Em síntese, a política externa do terceiro governo do agora presidente caracteriza-se pelo esforço de reconstrução da credibilidade internacional do Brasil após um período de relativo isolamento diplomático e desgaste de sua imagem externa. A retomada do engajamento em instituições multilaterais, o fortalecimento dos vínculos regionais, a busca por protagonismo em temas ambientais e a diversificação das parcerias internacionais evidenciam a tentativa de reposicionar o país como um ator relevante na governança global. Todavia, esse projeto de reinserção internacional ocorre em um contexto marcado pela fragmentação da ordem global, pela intensificação da competição entre grandes potências e por limitações domésticas que condicionam a atuação externa brasileira. Nesse cenário, a diplomacia de Lula III tem buscado conciliar ambições de protagonismo internacional com uma estratégia pragmática de não alinhamento ativo, procurando preservar a autonomia do país e ampliar sua capacidade de influência em um sistema transnacional cada vez mais complexo e disputado.


O USO DE TARIFAS COMO ARMA POLÍTICA PELOS EUA

A maré imperialista do segundo mandato presidencial de Donald Trump, iniciado em janeiro de 2025, urge diariamente pela busca de justificativas e saídas para se manter na crista da onda. Desde seu discurso de posse, o presidente dos Estados Unidos aduz posicionamentos de perseguição às pessoas transexuais, aos imigrantes e a todos aqueles críticos à agenda trumpista e do MAGA (Make America Great Again - proposta de governo que alude aos gloriosos anos de progresso “civil” e econômico dos Estados Unidos), e, ao longo desse primeiro ano, estendeu seu alcance político ao âmbito internacional, especialmente na adoção de mecanismos dissuasivos para impor a hegemonia dos Estados Unidos em um sistema internacional de predominância do mercado chinês. Sob o argumento de que o país precisa combater o déficit econômico, Trump blinda um posicionamento protecionista à medida em que se cega ao atual mundo divergente das décadas de ouro da economia estadunidense, mergulhando todo seu discurso de imposição de tarifas, anexações territoriais e combate ao terrorismo em contradições e ilegalidades. 

Figura - Trump anuncia tarifas recíprocas em abril de 2025

Dentro da disputa comercial internacional contra a China, Trump pregou a discricionariedade no mais alto nível para impor tarifas às importações americanas. Para alguns países, a justificativa é a reciprocidade econômica, para outros, a justificativa é a deslealdade de mercado ou, quiçá, uma relação deficitária, como é o caso do Brasil¹. Os principais setores afetados foram a exportação de aço, carne e café. Conforme a seção 301 da Lei de Comércio americana, o governo dos Estados Unidos pode impor medidas a um país que esteja violando acordos comerciais. Sob essa perspectiva, o governo brasileiro não estaria viabilizando o livre-comércio [aos moldes liberais] ao beneficiar sistemas de pagamento como o PIX, por exemplo, em detrimento das bandeiras de cartão (pilares financeiros fundamentais para a solidez dos Estados Unidos). 

No entanto, como apontado, o Trump embarga um tom ideológico muito estridente em suas práticas, na qual recorrer a seção 301 é um mero acessório num cipoal de poder. Isto é, sua indisposição com as práticas “desleais” comerciais brasileiras está intrinsecamente vinculada à soberania interna propugnada pelo governo Lula, vide o combate legal à tentativa de golpe de Estado do ex-presidente Jair Bolsonaro (nítido aliado de Trump), às restrições jurídicas brasileiras para com certas plataformas de redes sociais (como o Twitter, importante ferramenta de disseminação política do governo Trump durante a corrida eleitoral de 2024) e, por fim, a diplomacia do multilateralismo que destoa das condutas da política externa dos Estados Unidos contemporâneo (até como contenção dos blocos econômicos com a presença da China - BRICS).

No início de seu mandato, Trump anunciou uma tarifa de 10% às exportações brasileiras, aumentando esse valor para 50% em julho de 2025. No final de 2025, alguns encontros entre o Executivo do Brasil e dos Estados Unidos pautaram possíveis negociações no que tangia à redução das tarifas e possíveis concessões, mas sem contramedidas efetivas, uma vez que, ainda em abril de 2026, indicou o PIX como uma barreira imposta pelo Brasil aos interesses americanos no comércio exterior em documento divulgado pela USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos). Não obstante, deve-se comentar o posicionamento da Suprema Corte dos Estados Unidos que, em fevereiro de 2026, compreendeu o “tarifaço” de Trump como ato ilegal, derrubando tais tarifas; como resposta, o presidente decretou novas tarifas globais de 15% às importações americanas. 

A imposição de tarifas não configura simplesmente um bloqueio econômico ou um mecanismo para equilibrar o balanço de pagamentos do país. A imposição de tarifas caracteriza uma arma de política da dissuasão e da dominação sem necessariamente recorrer ao hard power (uso de forças militares ou coercitivos bélicos diretos no nível internacional), tendo em vista toda a lógica de subordinação que um país impõe ao outro. No caso brasileiro, as tarifas abusivas impelem uma reestruturação diplomática e de negociações que, indubitavelmente, o governo dos Estados Unidos insiste em garantir, como o acesso às terras raras presentes no território do Brasil e o restabelecimento de uma dependência comercial que tira a China da equação hegemônica. 


OUTRAS ARMAS POLÍTICAS

Donald Trump e a Diplomacia Digital

Donald Trump não se limita às estratégias padrões da diplomacia comum, muito pelo contrário. O presidente americano sempre se propôs a ser uma força disruptiva e que quebra regras. É nesse sentido que Trump apresenta sua “diplomacia digital” como marca registrada de sua política internacional. 

Para Corneliu Bjola, professor de Diplomacia Digital na Universidade de Oxford, esse método de política externa não é uma tendência efêmera, mas se apresenta como uma mudança estrutural na forma de se fazer política, fruto das transformações tecnológicas, alterando planejamento, gestão da informação, negociações e postura dos órgãos oficiais, indivíduos ligados ao Estado e instituições. A tecnologia acaba por transformar por completo a comunicação Estatal e gestão de relacionamentos, possibilitando canais de comunicação diretos com o público e a criação de uma imagem específica do Estado no espaço online.

Fatih Degirmenci, professor do Departamento de Relações Públicas da Ataturk University, junto de Elifnur Terzioglu, pesquisador nas áreas de Comunicação e Estudos de Mídia, analisam o uso da antiga plataforma Twitter (hoje chamada X) por Donald Trump durante seu primeiro mandato. Os pesquisadores ressaltam o uso agressivo de Trump da diplomacia digital -também chamada por eles de “Diplomacia 3.0”- atacando e ofendendo nações, líderes, movimentos sociais, protestos, plataformas de mídia, organizações internacionais e acordos. A conclusão dos acadêmicos é de que a agressividade e heterodoxia diplomática de Trump são disruptivas, tanto quanto irônicas, ao passo que o chefe de Estado dos Estados Unidos da América não se vale de linguagem diplomática tradicional, qualquer medida ética ou “soft power”, preferindo o ataque direto ao invés de meios difusos de exercer influência política. 

Já Aqsa Aslam, membro do departamento de Ciências Sociais e Relações Internacionais da National University of Modern Languages, analisa a atuação de Trump em seu segundo mandato, tanto no X, quanto em sua rede social própria, a Truth Social. A autora analisa eventos, quais a carta à Zelensky, postada por Trump logo após assumir em seu segundo mandato como presidente, no meio às tensões Rússia-Ucrânia, sinalizando que a Ucrânia perderia territórios em um acordo com a Rússia, transformando a posição do Estado Americano na guerra com poucos cliques em uma tela. 

Aslam também observa o vídeo de I.A. postado pelo chefe de Estado americano, no qual pede um cessar-fogo entre Israel e Hamas para que ele possa construir um hotel na Faixa de Gaza e lucrar com a reconstrução palestina. Ademais, também analisa o anúncio de Trump de cessar-fogo entre Índia e Paquistão antes de qualquer comunicação oficial de qualquer um dos países ou até de seu próprio país. Ao passo que o Paquistão usou o evento para “branding” próprio, a índia se sentiu em desvantagem diplomática.

Aslam, acompanhada por Degirmenci e Terzioglu, conclui que a Diplomacia 3.0 poderia promover transparência humanização do líder político ao garantir seu contato com direto e instantâneo com o público, mas esta prática diplomática, pela ausência de protocolos e confidencialidade, bem como sua instabilidade, não pode substituir a diplomacia tradicional, servindo como elemento adjunto. 

Trump desperdiça o potencial da Diplomacia 3.0 ao usá-la como instrumento de confronto e produzir isolamento ao invés de conexões e diálogo. Ao invés de construir um certo espaço estratégico de influência, Trump prefere ameaçar a estabilidade diplomática.


REUNIÃO DE LULA E TRUMP

Figura- Reunião Trump e Lula em maio de 2026

A reunião entre o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, realizada no dia 7 de maio de 2026 em Washington na Casa branca, representa um marco diplomático para as relações bilaterais entre o Brasil e os Estados Unidos e se mostra como um acontecimento que pode influenciar o cenário eleitoral brasileiro de 2026. O encontro datou um período de tensões relacionadas às tarifas comerciais, às divergências acerca do papel do Brasil em órgãos multilaterais e investigações econômicas, evidenciando uma tentativa pragmática de reconstrução do diálogo entre os dois governos marcados por profundas diferenças ideológicas. 

Realizada em cerca de três horas, de caráter exclusivo e particular, as principais pautas discutidas giraram em torno do comércio bilateral, a questão das tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, o combate ao crime transnacional e a exploração de minerais considerados estratégicos, principalmente das consideradas terras raras. Apesar das expectativas dos internautas acerca de possíveis conflitos discursivos, ambos os governantes adotaram uma postura conciliadora. Após a reunião, o presidente Trump classificou o encontro como “muito produtivo”, enquanto o presidente Lula reafirmou seu compromisso com o fortalecimento dos negócios e das relações diplomáticas entre os dois países. Consequentemente, foi anunciada a criação de grupos de trabalho para discutir questões comerciais e possíveis flexibilizações tarifárias. 

Entretanto, para além da esfera econômica, a relevância política da reunião reside em seu simbolismo. Visto que, durante os últimos anos, a imagem do presidente Donald Trump esteve fortemente associada a políticos da direita brasileira, especialmente devido a sua proximidade ideológica e política construída entre o chefe de estado norte-americano e o ex-presidente Jair Bolsonaro. Nessa perspectiva, a cordialidade demonstrada por Trump em relação ao presidente Lula rompeu parcialmente as expectativas de que o governo republicano atuaria em favor dos interesses da oposição brasileira. Ainda que os Estados Unidos continuem pressionando o Brasil em temas estratégicos, como a segurança nacional, a disposição do presidente americano para negociar de forma direta com o presidente brasileiro reforça a legitimidade internacional do atual governo brasileiro. 

Sob essa ótica, é importante ressaltar que, no âmbito eleitoral, essa dinâmica pode acabar gerando efeitos distintos. Para o governo Lula, a reunião ofereceu uma boa oportunidade para projetar uma imagem sólida de liderança internacional que se mostra capaz de dialogar com governos ideologicamente antagônicos. Essa postura fortalece o discurso de uma política externa objetiva, focada na ampliação das relações comerciais brasileiras e para resultados econômicos concretos. No contexto de uma disputa eleitoral, a capacidade de apresentar avanços significativos nas negociações tarifárias e na criação de uma imagem mais atrativa para investimentos estrangeiros no país podem servir como instrumentos importantes de capital político junto ao eleitorado moderado e aos setores produtivos do país. 

Contudo, isso abre margem para que a oposição possa explorar os desdobramentos da reunião para benefício próprio. Em um cenário onde as negociações sejam insuficientes e não resultem em reduções efetivas das tarifas ou melhorias perceptíveis para a economia brasileira, a reunião corre o risco de ser interpretada como um gesto meramente protocolar. Além disso, os setores alinhados à direita brasileira podem argumentar que a aproximação entre o Lula e o Trump ocorreu em razão de um interesse estadunidense estratégico, especialmente relacionado ao fácil acesso a recursos minerais e à contenção da influência chinesa na América Latina. Dessa forma, o encontro permanece aberto a diversos pontos de vista e narrativas que podem ser influenciados pelos desdobramentos de ações futuras que envolvam ambos os países. 

Portanto, a reunião de 7 de maio reiterou o papel da diplomacia contemporânea como uma ferramenta que ultrapassa os limites tradicionais da política externa, passando a influenciar diretamente os debates domésticos, principalmente em um cenário de ano eleitoral em um país marcado pela polarização política. Nesse cenário, com uma maior relevância das questões internacionais na atualidade, os resultado concretos, favoráveis ou não, decorrentes desse evento poderão vir a desempenhar um papel significativo na construção das campanhas políticas e na percepção pública acerca da capacidade do governo brasileiro de defender seus interesses em um cenário global que se torna cada vez mais instável.


CONCLUSÃO

Diante de um mundo multipolar em crise devido a conflitos que desafiam a soberania do direito internacional e, ainda, pela inserção de outras nações na disputa por poder, novas oportunidades surgem e, com elas, a necessidade de uma diplomacia eficiente. Não se trata, todavia, de simplesmente participar e impor sua presença em conferências, mas sim construir alianças sólidas e estabelecer possibilidades de diálogo com os Estados. O Brasil, que ao longo de sua formação no campo das relações internacionais se consolidou como um país neutro e adaptável, mais do que nunca está sendo incluído nas mesas de negociações e, o que poderia ser uma ruptura caótica dessa impassibilidade, na verdade, tem garantido resultados favoráveis. A performance brasileira em acordos e conversas transnacionais deriva de estratégias e condutas específicas, planejadas com cautela em cima de pilares que regem sua tradição diplomática. O evidente sucesso do encontro em Washington é resultado de tal processo que intui posicionar o Brasil no cenário internacional, de modo a preservar a soberania, a identidade e o desenvolvimento da nação. 

Embora os Estados Unidos se encontrem hoje em estado de frágil sinalização doméstica, ou seja, de que existe uma instabilidade muito grande dentro do país, Trump continua recorrendo à medidas de política externa extremas, desde atos apaziguadores até injeções imperialistas. Com isso, é possível inferir o saldo positivo nas ações do dia 7 de maio, em que a diplomacia brasileira mais uma vez foi capaz de manter o país numa posição confortável sem abrir mão do multilateralismo. Assim, é em vista dos vários tipos de discurso empregados pelos países, que o Brasil se sobressai e ganha influência ao permitir janelas de diálogo com todos eles. 


Elena Nora

Jéssica da Silva

Jonas Pessoa

Júlia Fernandes

Luca Berton

Luiza Formici


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ALMEIDA, Luana Coracini; MONASSA, Clarissa Chagas Sanches. O PAPEL DO BRASIL NA ONU: HISTÓRIA DIPLOMÁTICA E PERSPECTIVAS ATUAIS. REGRAD-Revista Eletrônica de Graduação do UNIVEM-ISSN 1984-7866, v. 18, n. 1, p. 177-197, 2025.


ALVES, Guilherme. Brasil retorna à Unasul após saída em 2019. Observatório Político Sul-americano: [s.l.], 2023. Disponível em: <https://opsa.com.br/evento-urgente-brasil-retorna-a-unasul-apos-saida-em-2019/>


ASLAM, Aqsa. Digital Diplomacy Threat or an Opportunity: Donald Trump’s Social Media Strategy in International Relations. In: MULTIDISCIPLINARY RESEARCH INTERNATIONAL CONFERENCE (MRIC), 10., Wah: University of Wah, Out. 2025. Disponível em: https://www.uow.edu.pk/MRIC/Publications/10th%20MRIC-054.pdf. Acesso em: 23 maio 2026. 


BJOLA, Corneliu. Making sense of digital diplomacy. In: BJOLA, Corneliu; HOLMES, Marcus (org.). Digital Diplomacy: Theory and Practice. New York: Routledge, 2015. 


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