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- GEPESOI

- 30 de abr.
- 13 min de leitura

Terras Raras: O tesouro estratégico nacional e o centro da disputa entre EUA e China.
INTRODUÇÃO
As recentes declarações do senador brasileiro Flávio Bolsonaro (PL-RJ) sobre a possibilidade de comercialização de terras raras brasileiras para os Estados Unidos colocaram em foco um debate estratégico de grande interesse para o país. Em um contexto global marcado pela crescente disputa por recursos essenciais à transição energética e ao avanço tecnológico, as jazidas raras assumem papel central nas cadeias produtivas de setores como o de eletrônicos, sistemas de inteligência artificial e centros de dados, energia limpa e defesa. Paralelamente, o Brasil, detentor da segunda maior reserva rara do mundo, se insere, neste cenário, como um ator de importante interesse internacional que se torna centro de debates e contendas.
Coloca-se em pleito, portanto, um panorama dicotômico para o país: de um lado, a oportunidade de ampliar sua inserção no mercado internacional, atraindo investimentos e se tornando um player essencial na cadeia global de suprimentos raros; de outro, os riscos associados à dependência estrangeira e à perda de soberania sobre recursos estratégicos em um enquadramento de disputas, por parte de potências, pelo acesso e exploração desses minérios. As falas do senador, nesse sentido, não apenas provocam reações no cenário político interno, mas também evidenciam as tensões entre o desenvolvimento econômico e a autonomia nacional, levantando discussões que perpassam a análise política, econômica e estratégica.
Diante desse panorama, este artigo se propõe a analisar criticamente as implicações dessas declarações, considerando tanto a importância das terras raras para a produção mundial, transcorrendo pelos interesses estadunidenses e a sua disputa geopolítica com a China, quanto às consequências nacionais do discurso proferido.
O QUE SÃO TERRAS RARAS?
Descoberta no século XVIII, mas com pesquisas e desenvolvimento de tecnologias que só vieram a ocorrer em meados da metade do século XX, com o pioneirismo chinês, as terras raras são, na verdade, um grupo de cerca de 17 elementos metálicos da tabela periódica, como escândio, ítrio e os lantanídeos. Ao contrário do que se pode imaginar, na verdade eles não são de fato raros, mas até comuns. O nome, portanto, vem do fato de sua extração ser difícil e cara. Essa é a maior dificuldade da obtenção desse material, devido às tecnologias específicas para sua obtenção e processamento, além dos graves riscos de impacto ambiental
O que antes era uma “mera curiosidade de laboratório”, hoje representa o avanço da Quarta Revolução Industrial, com as terras raras desempenhando papel central para que esse salto seja possível. Devido às suas particularidades como propriedades magnéticas, ópticas e catalíticas tornaram-a protagonista no avanço de diversas tecnologias sustentáveis, da informática e de outros diversos setores. Assim, a Indústria 4.0, dada pela integração de tecnologias digitais avançadas à manufatura, com a inteligência artificial aplicada, automação a internet das coisas, computação em nuvem e as famigeradas “big datas”, que ao passo que podem representar o aumento da eficiência produtiva, também é dependente dos minerais das terras raras, o “petróleo do século XXI”. Elas são essenciais para a produção, por exemplo, dos ímãs de alta performance, aplicados em tecnologias estratégicas, como carros elétricos, turbinas eólicas, sensores, robôs, super condutores, equipamentos eletrônicos e sistemas de defesa. Mas seu papel não está concentrado apenas nos equipamentos de alta tecnologia, como também naqueles mais comuns do dia a dia, como smartphones, luzes LED , TVs de tela plana ou até em aparelhos de ressonância magnética, essencial para o âmbito da saúde.
Entretanto, por mais que as terras raras representem o futuro da tecnologia e da produção sustentável, sua extração e processamento depende de complexas, demandando tecnologias específicas e um alto cuidado para não gerar impactos ambientais. Dessa maneira, segundo a Agência Internacional de Energia, 61% da produção mineradora está concentrada na China, e se contar a etapa de processamento, a porcentagem sobe para 92% da produção mundial. Devido ao pioneirismo no estudo de mecanismos de extração e processamento, hoje a China detém um impacto de grande parcela na economia mundial rumo à Quarta Revolução Industrial, tornando toda uma cadeia produtiva atrelada à ela.
O Brasil, nesse cenário, detém um grande potencial para o desenvolvimento de uma vasta indústria 4.0, uma vez que possui a segunda maior reserva global das terras raras. Entretanto, por enfrentar desafios estruturais de cadeia produtiva consolidada, limitações regulatórias, déficit tecnológico e falta de incentivos à pesquisa e investimento, torna o país um grande potencial latente, mas com dificuldades para a consolidação de uma vanguarda no desenvolvimento tecnológico. Todavia, tendo em mente que projetos alternativos fora do eixo chinês vem adquirindo grande destaque e importância na geopolítica, o Brasil torna-se um dos atores centrais do enfoque internacional na corrida pelas terras raras.
POR QUE OS EUA TÊM ESSE INTERESSE?
O interesse dos Estados Unidos no acesso aos minerais estratégicos do Brasil, localizados nas terras raras, foi manifestado pela primeira vez entre as décadas de 1950 e 1960, no contexto da Guerra Fria travada contra a antiga União Soviética, momento em que os Estados Unidos importaram grande quantidade de areia monazítica brasileira, rica em tório, material radioativo aplicado na indústria nuclear (Coura, 2025).
Todavia, o discurso que acompanha a manifestação de interesse nas terras raras brasileiras, emitida em julho de 2025 pelo governo Estadunidense, hoje não faz explícita alusão à esse histórico, mas sim, faz referência à disputa de países pela liderança científico-tecnológica planetária, uma vez que as terras raras são um conjunto de elementos químicos associados a alguns minerais julgados raros devido à dificuldade de extração e processamento, minérios majoritariamente ligados a produções essenciais nas indústrias tecnológicas, como baterias, ligas de alta resistência, superligas, imãs etc.
Desse modo, uma vez cientes de que compostos como como lítio, cobalto, níquel, neodímio, európio etc., minérios essenciais para a produção de praticamente todos os dispositivos eletrônicos modernos, existem em abundância nas terras raras, os Estados Unidos consolidam seu interesse na área, com afirmação de que a exploração desses minérios visa consolidar avanços em seu mercado tecnológico.
A DISPUTA ENTRE EUA E CHINA PELOS MINERAIS RAROS
Dentro desse debate, não é possível ignorar o impacto da China, que hoje se insere como a grande potência global em terras raras. O país concentra em seu território a maior jazida de reservas raras do mundo, com 44 milhões de toneladas, quase metade do total mundial, além de controlar cerca de 61% da produção e 92% do processamento e refino das matérias primas, de acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE). Paralelamente a isso, a potência também domina a produção de ímãs permanentes, utilizados na produção de motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, mísseis de de defesa, sistemas de inteligência artificial e centros de dados, assumindo controle expressivo de todas as etapas da cadeia de suprimento global de minerais raros.
A dependência de diversos atores globais de seu fornecimento de matéria prima também é notável. Segundo dados da Comissão Europeia, a União Europeia importa entre 90% e 98% de suas terras raras da China. Já relatórios estadunidenses indicam que, no período de 2020 a 2023, cerca de 70% de suas importações de compostos raros vieram do país asiático. Nesse sentido, também cabe relembrar o impacto da guerra comercial deflagrada pelo atual governo Trump: a imposição de tarifas de mais de 100% sobre produtos chineses em 2025 provocou uma dura resposta do país através de tarifas retaliatórias e restrições ao acesso a suas terras raras. Tal medida afetou o suprimento de componentes chaves para setores como o de tecnologia e infraestrutura militar americanos e, principalmente, ressaltou a magnitude do poder estratégico chinês em relação ao fornecimento mineralógico raro.
O diferencial da potência asiática frente aos demais países detentores de jazidas raras se concentra na sua capacidade tecnológica de processamento e refino dos materiais. Tais aspectos ainda são considerados pouco desenvolvidos em regiões produtoras em potencial, como o próprio Estados Unidos, que não tem a capacidade necessária para separar terras raras pesadas e, portanto, necessita enviar o seu próprio minério para processamento na China. É justamente esse controle sobre toda a cadeia produtiva de um recurso estratégico que aquece as disputas políticas e que preocupa os EUA, principalmente ao se considerar um novo fator relevante, no qual o Brasil está diretamente envolvido: a expansão chinesa sobre áreas estratégicas de exploração de minerais raros, principalmente no sul do continente americano.
O aumento de investimentos por parte da China sobre a América Latina não é novo e se expressa substancialmente através da Iniciativa Cinturão e Rota. O projeto vem sendo implementado desde 2013, porém atingiu uma nova fase de expansão na região meridional americana a partir de 2018, com vultosos investimentos concentrados principalmente em setores de infraestrutura, como portos, ferrovias e energia. O próprio Brasil, apesar de não ter aderido à iniciativa formalmente, vem dando acenos ao país asiático em ações recentes, como a ratificação, em 2024, de 37 tratados bilaterais, muitos deles relacionados, justamente, ao setor de mineração. Segundo dados do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), os investimentos chineses no Brasil neste mesmo ano totalizaram US$ 4,18 bilhões, dos quais 13%, mais de meio bilhão de dólares, foram investidos na exploração mineral, o que ilustra o interesse chinês pelas jazidas brasileiras, mais especificamente, pelas terras raras do país.
Considerado a segunda maior reserva rara do mundo, concentrando um quarto do total mundial segundo dados do Ministério de Minas e Energia, o Brasil sofre do mesmo cenário anteriormente abordado relacionada à falta de acesso ao conhecimento técnico de processamento. Tal conjuntura leva o país a realizar amplas exportações de matérias primas raras não processadas para a realização de refino no país asiático. Somente no primeiro semestre de 2025, tal comércio atingiu marcas totais de US$6,7 milhões, o triplo da somatória de todo o ano de 2024. Dessa forma, a intensificação da articulação produtiva entre Brasil e China não somente aumenta a influência chinesa sobre reservas raras nacionais, mas também, dentro do contexto abordado neste artigo, representa uma ameaça aos interesses dos Estados Unidos no continente americano e às suas intenções de acesso a reservas raras que podem vir a ser exploradas em seu interesse.
A polêmica fala do senador Flávio Bolsonaro, ao sugerir que o Brasil seja um fornecedor estratégico de terras raras para os EUA, explicita as disputas entre ambas as potências. O investimento estadunidense no país latino americano representaria, portanto, uma estratégia para reduzir sua dependência em relação à China no fornecimento de materiais raros aliada a uma jogada ideológica de oposicionismo frente à ampliação de escopo de atuação chinesa no continente americano, o que evidencia as múltiplas camadas de análise envolvidas nessa disputa. Não apenas, tal postura, considerada entreguista, traz ao debate questionamentos sobre a soberania nacional, que ganham amplitude e densidade mediante a análise tanto dos interesses estadunidenses sobre as reservas minerais nacionais quanto das intenções chinesas no país.
Também é digno de nota ressaltar o mais recente capítulo de tal contenda, que se deu com a compra integral da mineradora Serra Verde, localizada em Goiás, em 20 de abril deste mês. Em um financiamento de US$565 milhões por parte dos EUA, a empresa, considerada a única produtora em escala dos principais elementos de terras raras fora da Ásia, foi adquirida em um regime denominado offtake, que garante prioridade de suprimento a empresas americanas ou ligadas a interesses estadunidenses. Na prática, isso significa que grande parte da produção da mineradora poderá ser direcionada aos EUA, limitando sua disponibilidade para demais compradores interessados, como a China, mas, para além disso, demonstra que as disputas sobre a soberania nacional e o debate sobre o controle brasileiro de suas próprias reservas mineralógicas raras estão longe de obter um desfecho definitivo.
O QUE FLÁVIO BOLSONARO DISSE E QUAIS SÃO OS IMPACTOS DA SUA FALA?
Ao ensaiar o Brasil como uma “grande reserva mineral” de minerais críticos e terras raras, a qual os EUA poderia acessar como quisesse, a qual os EUA poderia mesmo considerar parte de suas riquezas econômicas e minerais, Flávio Bolsonaro abre precedente um perigoso: a submissão do Brasil e de suas riquezas a uma potência estrangeira e a perda da soberania nacional no que tange nosso próprio subsolo e potencial industrial e de autonomia produtiva, isto é, o potencial de desenvolvimento de uma indústria nacional forte, exportações de produtos de maior valor agregado e diminuição da dependência econômico-industrial brasileira quanto a outros países, incluindo o próprio Estados Unidos.
A realidade é que Flávio Bolsonaro já acena para os mesmos setores que acenara seu pai, Jair, e “companheiros ideológicos”, como Ronaldo Caiado, governador de Goiás, e Hugo Motta, presidente da câmara dos deputados. Na prática, isso significa um aceno ao mercado, ao capital financeiro e a setores privados, bem como a seus interesses no aumento de seus lucros, em detrimento dos interesses mais urgentes à nação e ao Estado brasileiro, como seu desenvolvimento econômico e social.
Muito recentemente, Caiado e Motta defenderam, cada um em suas funções, a entrega de terras raras brasileiras à iniciativa privada. O governador de Goiás efetivamente selou a venda da mineradora Serra Verde, única mineradora que explora terras raras em solo nacional, à mineradora americana USA Rare Earth. Ao passo que Hugo Motta disse, em recente entrevista, que os projetos tocados na câmara dos deputados, no que tange às terras raras, serão voltados à exploração pelo setor privado em detrimento do projeto que visa a criação da TerraBrás, que seria uma nova estatal brasileira voltada para a exploração neste setor.
Como já disse o próprio “01” — maneira, que Jair Bolsonaro apelida seus filhos, isto é, por ordem de nascença — sua gestão econômica seria marcada pela continuidade do que Paulo Guedes havia começado, no caso, um brutal assalto neoliberal à qualquer medida ou estrutura estatal que privilegie um pouco mais o campo do social ao invés do âmbito do mercado.
POSSÍVEIS IMPLICAÇÕES PRÁTICAS DESSA FILOSOFIA DE GOVERNO
Sobre o Neoliberalismo, esta é uma teoria econômica que ganha popularidade no final da década de 1970 e prega que o Estado não deveria intervir na atividade econômica e que esta se regularia a partir das dinâmicas naturais do mercado -exceto, é claro, quando o Estado deve salvar o próprio mercado de si mesmo-. Aqui o mercado aparece como ente universal, imanente e natural, fundado a partir da própria atividade social humana. O que é um artifício discursivo, um “retorcimento histórico” sem precedentes, o qual desconsidera completamente o papel da ação estatal na constituição e manutenção do mercado ao longo da história.
Sobre o neoliberalismo e soberania geológica, Jeremy Walker e Matthew Johnson interpretam que o projeto neoliberal, do qual Flávio Bolsonaro, bem como Caiado e Motta, é ferrenho adepto, promove a re-privatização das estruturas geológicas e minerais contra qualquer conquista do setor público. Em espécie de genealogia sobre o poder geológico, os autores postulam a soberania sobre seu subsolo como um dos fundamentos do Estado moderno e prerrogativa para o estabelecimento de sua soberania numismática internamente. Isto é, a produção de uma moeda soberana só foi possível a partir do controle sobre os metais preciosos de cada nação.
Para os autores, um dos perigos da perda de soberania sobre o subsolo e abrir espaço para a entrada de corporações privadas exploradoras -o que chamam de “Capital Fóssil”- é que estas mesmas podem acabar por moldar a legislação do país, a partir de lobbies. Aqui, Walker e Johnson destacam a Sociedade Mont Pélerin e a Atlas Network, Think Tanks que agiram politicamente a favor do Capital Fóssil para garantir que o lucro dessas empresas fosse garantido como direito de propriedade privada nas normas internacionais, acima de controle democrático. Não é apenas um elemento do desenvolvimento econômico, mas no que diz respeito à autonomia política também.
CONCLUSÃO
Em suma, compreende-se que garantir o acesso prioritário aos minerais de terras raras presentes no território brasileiro poder visto tanto como uma questão econômica como política, uma vez que esse tipo de matéria prima é essencial para a manutenção de grandes multinacionais, tanto do setores ligados a tecnologia de ponta como de setores da mineração.
Entretanto, o impacto geopolítico não pode ser descartado, uma vez que a escolha do comprador dos minérios produzidos revelaria a inclinação política da atual gestão do país. Desta forma, escolher entre os reconhecidamente antagônicos EUA e China seria automaticamente compreendido como uma forma de apoio e alinhamento político. Falas como as do senador Flávio Bolsonaro sobre o assunto podem ser consideradas um ataque a atual gestão brasileira, uma vez que declara amplamente a sua preferência à aproximação econômica aos EUA, desconsiderando totalmente o posicionamento oficial da nação, podendo gerar tanto um mal estar entre as nações envolvidas ao inflamar ainda mais essa disputa por recursos, como disputas políticas internas brasileiras fruto da crescente polarização que acontece em todo o país.
Breno Campos
Jéssica da Silva
João Vitor Ficagna
Júlia Fernandes
Luca Berton
Marcela Corsi
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