A questão do desarmamento infantil no cenário internacional
- GEPESOI

- 11 de mai. de 2020
- 3 min de leitura
Atualizado: 18 de mai. de 2020
Conhecido como o Dia Internacional do Desarmamento Infantil, o dia 15 de abril é comemorado para criar consciência sobre a questão das armas e seu efeito sobre as crianças. Além disso, o evento busca aumentar o debate sobre essa temática dentro das casas e nas escolas, visto que o impacto de tais objetos afeta pessoas destas idades de uma forma completamente diferente dos adultos.
Três estudos recentes dos Estados Unidos ajudam a entender essa complexa relação entre armas de fogo e crianças. O primeiro deles , assim como os demais, foi apresentado na Conferência Anual da Academia Americana de Pediatria (AAP) e, dentre seus resultados, pôde pontuar que estados americanos cujo porte de armas é menos restrito apresentam o dobro de mortes infantis por armas de fogo, comparado àqueles com legislações mais duras. A segunda pesquisa determinou que pessoas nas idades entre sete e dezessete anos não são capazes de diferenciar, a partir de imagens, armas reais daquelas que seriam de brinquedo. Finalmente, a última análise evidenciou a relação direta entre crianças mais jovens e sua suscetibilidade a sofrer acidentes com armamentos.
Esses dados ajudam a interpretar e entender alguns casos de atentados em escolas nos EUA. Grande parte deles, neste século, foi causada por jovens entre 11 e 18 anos, segundo a Revista de Estudos da Criança e da Família. De acordo com Antonis Katsiyannis, o autor principal do estudo, a facilitação do acesso a armas, além de uma maior frequência de adolescentes com distúrbios mentais e sem conseguir resolver determinados conflitos são fatores que explicam este fenômeno.
Além disso, outro ponto que deve ser mencionado é a questão das crianças-soldado, na qual desde cedo crianças são postas em cenários de guerra para fazer parte de exércitos que possuem determinada causa. Essa antecipação da infância para uma vida adulta violenta tem consequências graves no psicológico dessas, o que deve ser discutido no cenário internacional de forma incisiva, enfatizando as regiões onde ainda essa prática é recorrente. Mesmo com declarações de exércitos que utilizam crianças nas forças armadas -como na Guinea-Bissau e no Sudão- e de que estes são normalmente alocados em áreas onde não há confronto direto, como cozinheiros, carregadores, espiões estratégicos, o contato com armamentos é frequente e digno de preocupação.
Este acontecimento é mais frequente em guerras civis e no crime organizado relacionado ao narcotráfico, onde a organização do exército no âmbito legal é inexistente, e muitas crianças já nascem no meio violento, uma vez que no país em que vive as gangues e milícias podem ser mais poderosas que o próprio governo. O documentário “Beasts of No Nation”, protagonizado por Idris Elba e produzido pelo Netflix em 2015 e a obra literária “Muito longe de casa: memórias de um menino-soldado” de Ishmael Beah - que retrata suas memórias como criança-soldado na guerra civil de Serra Leoa - são exemplos de retratos culturais midiáticos que explicam de forma sucinta um dilema que atualmente é experienciado por estimadamente 300 mil crianças espalhadas por pelo menos 86 países.
Em relação ao que se fazer diante desta questão, um maior problema surge: como afastar crianças deste contato direto com armas e cenários de violência crua e extrema sem afetar a soberania de uma nação. Um grande exemplo de superação em partes deste problema está em Yambio no Sudão do Sul, onde desde 2018 iniciou-se o processo de desmobilização das crianças-soldado, sendo simbolizada por uma cerimônia, organizada pelo governo, onde as crianças deixavam seus fuzis e levavam em troca cadernos e lápis. Este resultado, porém, não foi rápido, uma vez que as milícias pelas quais estas crianças lutavam tiveram que ser contidas por um novo governo, instituído democraticamente, mas de forma urgente, com ajuda de outras nações. Hoje em dia os ex-participantes desta milícia fazem parte do exército nacional e apoiam a destituição das crianças-soldados, entretanto, a longa jornada até aqui nos mostra a dificuldade da questão, uma vez que ainda 19 mil crianças não passaram pelo processo e ainda estão no posto de soldados. Mesmo sendo, como mencionado antes, um exemplo, é impossível de se copiar o plano de ação usado pelos sudaneses em qualquer outro território, uma vez que cada um possui suas particularidades. Entre a urgência de um plano e a necessidade de detalhamento, o que leva tempo, do mesmo; assim se encontra a questão das crianças-soldado do plano internacional, dentro da ONU, e internamente nos Estados.
A partir de todos esses dados e informações, fica evidente a necessidade do Dia do Desarmamento Infantil e do debate do mesmo no interior da sociedade, tanto em níveis familiares, como em esferas governamentais, sobre a temática.





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