As eleições francesas e os impactos na União Europeia: desafios políticos de Macron
- GEPESOI

- 11 de mai. de 2022
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Após uma disputa acirrada e acalorada, Emmanuel Macron foi reeleito presidente da França no domingo, dia 24 de abril, com 58,55% dos votos, enquanto sua rival, a candidata de extrema-direita, Marine Le Pen, conseguiu um total de 41,45% no segundo turno das eleições. Não obstante, Macron se tornou o único presidente francês a ser reeleito nos últimos vinte anos . A conjuntura pela qual se construiu sua reeleição e o cenário internacional não permitem relaxamentos, porquanto refletem que os desafios para o atual presidente só tendem a recrudescer.

Estar com uma diferença de 17,10% de seu adversário político em uma eleição pode parecer um grande feito quando se observa de fora; entretanto, ao analisarmos minuciosamente as conjunturas, veremos que a porcentagem, por si só, pode ser incongruente para análise política. E é exatamente isso que aconteceu nessas últimas eleições presidenciais na França. A vitória de Macron não reflete a realidade de sua base política, ou em outras palavras, seu montante de 58,55% dos votos é por demasiado simplista para se analisar de fato a conjuntura política francesa.
Comparado ao embate protagonizado nas eleições de 2017, Macron perdeu cerca de três milhões de votos, enquanto Le Pen ganhou cerca de dois milhões ; outrossim, juntamente com um número recorde de abstenções e votos nulos e brancos , o próprio Macron reconheceu que muitos dos votos conseguidos, sobretudo no segundo turno, foram direcionados com o propósito de barrar Le Pen, e não por apoio concreto a ele . De tal modo que sua situação está longe de ser considerada estável, sobretudo em meio à um cenário de grande polarização política e insatisfação social, estas advindas das ameaças de crise financeira, das reformas neoliberais e dos impactos negativos – inter alia, a pressão inflacionária – gerados pelas sanções impostas pela União Européia aos produtos russos – sobretudo ao gás natural e ao petróleo – para os cidadãos europeus.
Outrossim, faz-se necessário ressaltar a problemática que a vitória da candidata do Rassemblement National poderia trazer à União Europeia. Afinal, apesar de não se pronunciar abertamente sobre um “Frexit” - saída da França da União Europeia, tal qual ocorreu com o Reino Unido - em sua sua campanha mais recente, Marine Le Pen se mostrou favorável a uma reforma radical no bloco e defendeu a saída francesa da Zona do Euro na corrida eleitoral de 2017. Somando-se as propostas de diminuição das contribuições financeiras da França com a UE e o seu claro posicionamento contrário às políticas de imigração dentro do bloco à inesperada eleição de Donald Trump, em 2016, e ao abrupto Brexit, a possível eleição da “eurosceptic” e “europhobica” (MALINGRE, 2022) Le Pen preocupava os demais Estados-membros da União Europeia.

Por outro lado, Macron possuía bastante apoio dentro da comunidade europeia, já que apresentava propostas de tornar a Europa mais independente - com a França numa posição central - e soberana, com uma revitalização após o processo do Brexit. Ele defendia a criação de um exército próprio e de um orçamento de defesa europeu, com uma coligação ainda mais efetiva dos Estados-membros. Apesar de um certo estranhamento em 2017, vários líderes passaram a apoiar as ideias de Macron, principalmente após a pandemia e agora com a invasão russa à Ucrânia. Ademais, é fundamental, destarte, compreender o contexto da França na União Europeia e o papel que essa nação ocupa nos dias atuais. Além de ser a segunda maior economia da UE, o país passou a representar o maior poderio militar após a saída do Reino Unido no começo de 2020, com a consolidação do Brexit.
Tanto que os europeus evitaram possíveis confusões que pudessem afetar a sua campanha presidencial e alguns líderes do continente, como os de Portugal, da Espanha e até mesmo da Alemanha posicionaram-se favoráveis à reeleição de Macron, atitude considerada incomum entre os membros do bloco. Além disso é válido pontuar o protagonismo que a figura de Macron passou a ocupar a partir do despontar da pandemia de Covid-19, uma forma de confirmar sua fala de que seria um “presidente jupteriano”, ou seja, um presidente de caráter dominador e autoritário, segundo o dicionário Larousse. Isto é, além de impor as medidas sanitárias na França, ele tentou ser o estadista europeu capaz de criar uma homogeneidade no continente em questão do cenário pandêmico. A saída de Angela Merkel da liderança da Alemanha no fim de 2021 foi um outro evento que possibilitou essa ascensão de Macron como personagem forte e decisivo na Europa. Em relação à invasão russa nas terras ucranianas - a última das crises de seu primeiro mandato - ele agiu da mesma forma, com a tentativa de estabelecer contato com Vladimir Putin e oferecer apoio massivo a Volodymyr Zelensky, o líder ucraniano.
Já que, com a atual liderança francesa na União Européia, as responsabilidades frente às posições tomadas no cenário internacional, sobretudo no que tange à guerra na Ucrânia, se tornam muito maiores, porquanto são tomadas em nome do bloco . A posição assumida por Macron, de aprovação ao bloqueio contra à Rússia, gerara impactos econômicos negativos aos próprios europeus, e a sua duração e efetividade é contestada frente à efervescência social. Nesta segunda-feira, dia 09 de maio, Macron afirmou o anseio francês pela paz na Ucrânia por meio de um cessar-fogo, que facilitaria as negociações com a Rússia e possibilitaria a abertura de um caminho para o fim definitivo do conflito. Desde o início das tensões em Donbass, em 2014, a França atua com protagonismo nos diálogos entre as partes, e a tendência é que tal papel se amplifique, sobretudo nas conversas diretas com o presidente russo Vladimir Putin. Em meio à um cenário em ebulição, caberá observar se o cenário internacional pressionará em direção à um fortalecimento do bloco europeu, sendo a França a pioneira no processo, ou se as consequências econômicas advindas das aplicações colocarão em xeque a ordem européia até então vigente, abrindo espaço para outros atores políticos em movimento.
Escrito por: Julio Fernando dos Reis, Letícia Laurenti Olivi, Tales Miralha.
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