Cultura em meio a Pandemia do Coronavírus
- GEPESOI

- 11 de mai. de 2020
- 6 min de leitura
Atualizado: 18 de mai. de 2020
O conceito cultura engloba uma diversidade de fatores presentes na convivência dos seres humanos. De acordo com a definição do antropólogo inglês Edward Burnett Tylor, cultura englobaria todos os conhecimentos, crenças, manifestações artísticas, moral, leis e costumes de uma sociedade, ou seja, é a forma como os indivíduos se relacionam dentro de sua associação humana. Cada cultura, dentro de suas especificidades, é responsável por determinar padrões de comportamentos e fornecer aos sujeitos pertencentes a ela um caráter de pertencimento, criar determinados referenciais e garantir um sentimento de identidade e identificação.
Segundo o filósofo Estevão Chaves de Rezende Martins, a cultura pode se dividir em algumas dimensões. A primeira delas é a dimensão estética, que representa as manifestações da população através de expressões eruditas ou populares. A segunda dimensão é denominada como política por representar a legitimação de verdades e preceitos dentro da sociedade. E por fim, se apresenta a dimensão cognitiva representada pela educação, possuindo o papel de ensinar o que é ou não aceito.
Tais conceitualizações e a presente discussão se colocam como relevantes diante do cenário atual, uma vez que o distanciamento social necessário para a contenção da COVID-19 tem modificado não só a forma como os indivíduos se relacionam, como também toda a estrutura dos eventos culturais que costumavam acontecer. As diversas manifestações culturais responsáveis por promoverem conhecimento, lazer e socialização - além de estimular setores econômicos - estão sofrendo drásticas modificações durante este momento, sendo o papel da população verificar os impactos das mesmas.
O setor cultural brasileiro representa cerca de 2,64% do PIB, sendo de vital importância para a economia do país. Desde a posse de Jair Bolsonaro, esse setor vem sofrendo grandes ataques devido às políticas incentivadas e implementadas pelo governo. Com o avanço da pandemia em território nacional, em especial, nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, os maiores centros culturais da atualidade, há uma estimativa de que o prejuízo ocasionado pelo fechamento e cancelamento de eventos no setor causem um impacto de aproximadamente de R$ 100 bilhões.
Nesse momento, haveria a necessidade da Secretaria da Cultura realizar medidas que auxiliassem os fornecedores da cultura. No entanto, as medidas tomadas pela atual secretária da cultura, Regina Duarte, são pouco eficientes se comparadas com as criadas por outros países, uma vez que muitas ideias foram postas em discussão, mas a única que se concretizou foi incluí-los no recebimento do auxílio emergencial, mas eles, dificilmente, são aceitos na ajuda oferecida pelo governo federal.
Quem está tomando medidas um pouco mais efetivas, são os governadores locais. No estado de São Paulo e do Rio de Janeiro passaram a ser oferecidas linhas de crédito subsidiadas para ajudar todo o setor, desde teatro à cinemas, mas segundo especialistas da FGV (Fundação Getúlio Vargas) e da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), elas apenas minimizam os problemas mas não os solucionam. O governo paulista disponibilizou R$ 10 milhões para patrocinar o projeto Janelas de São Paulo, para a transmissão ao vivo – inspirados no que foi feito na Itália, foi criado também um site em que os produtores culturais possam divulgar seus projetos e facilitar o acesso da população a meios culturais.
Esse setor tem um impacto muito grande na economia e no bem estar social, uma vez que além da renda direta dos eventos, há uma série de profissionais informais que garantem a renda através de venda de bebidas, alimentos e itens de marketing na entrada. Os trabalhadores que fazem a montagem de palcos, os produtores culturais, dentre outros terão que se readaptar, pois não haverá espaço para todos e isso causará um êxodo em massa dos trabalhadores da área. Nesse sentido, essas pessoas serão prejudicadas, não só durante a pandemia, como muitos meses ou talvez anos após a disseminação da COVID-19, uma vez que as pessoas que tinham hábitos culturais irão mudá-los, tentando adaptá-los às novas condições financeiras que irão enfrentar.
Os artistas têm buscado meios de driblar a pandemia e levar cultura às pessoas que se encontram em isolamento. As lives nas redes sociais tem ganhado um papel de suma importância para ajudar o isolamento social, são elas as responsáveis por garantir a alegria e o desligamento da sombria realidade que assombra todos ao redor do globo. O maior show transmitido ao vivo na internet foi o One World: Together At Home, organizado por Lady Gaga, que reuniu grandes nomes da música, das mais variadas épocas e nacionalidades, arrecadando quase US$ 128 milhões, os quais foram destinados à ajuda de profissionais da saúde que têm travado batalhas diárias contra a COVID-19.
No Brasil, diversos cantores tiveram a mesma atitude, mesmo com todo esse sucesso, entretanto, algumas lives tem causado uma série de críticas devido às aglomerações ocasionados durantes as gravações. Os cantores estão buscando patrocínio como meio de dar mais visibilidade e autopromoção, mas no momento da gravação alguns deles contam com a presença de garçons, e outros profissionais não essenciais para esses momentos. Outra problemática é que alguns cantores estão pedindo doações para o combate ao Coronavírus durante as transmissões, o que em si não é um problema, mas se não bem explicado e se não contextualizado, esse pedidos demonstram um descrédito com a atual realidade de muitos espectadores, que são trabalhadores que no momento encontram-se com uma situação financeira adversa, ou sem uma fonte de renda fixa. Além disso, em muitos casos essa verba pedida está sendo desviada por golpistas através de fraudes no QR Codes exibidos durante as transmissões.
Para além do seu impacto em quesito doméstico, também podemos perceber sua influência e impacto internacional. Em primeiro ponto, a cultura pode ser usada para autoconhecimento, pois, a partir da percepção do "Outro", conseguimos formar o "Eu" e, portanto, saber como nossa própria cultura se encaixa no Sistema Internacional e nas relações entre as nações. Perceber a sua própria cultura é vital tanto para desmistificar estereótipos e padrões quanto para fortalecer a identidade nacional, sabendo priorizar com excelência suas políticas internas sobre o tema.
Esses jogos de saber formular suas políticas internacionais com foco para a questão da cultura são percebidos por meio da diplomacia cultural. Em suma, essa atividade define-se como os processo de relações internacionais que ocorrem por meio, com auxílio ou visando o impacto cultural, por parte do país influenciado ou influenciador diplomaticamente. Para além disso, é possível mencionar um aspecto importante da relação, por vias culturais, entre países do Ocidente e a China. Por conta do Orientalismo, definido resumidamente por Said (2007) como uma série de imagens e estereótipos criados sobre o Oriente e as pessoas que ali habitam, a diplomacia cultural entre essas duas regiões foi afetada por séculos.
Esse conceito é vital para compreendermos as relações do Brasil com a China durante essa pandemia de COVID-19. Após Eduardo Bolsonaro assumir uma postura racista e orientalista em suas redes sociais, uma crise diplomática se instaurou entre as duas nações, visto que o mesmo teria culpado a China pelo vírus. Tal postura mostrou o poder da cultura dentro das relações entre os países, de forma que esse pensamento é, infelizmente, decorrente de uma postura diplomática e cultural do governo e de seus apoiadores, sendo que os mesmos constantemente idolatram os Estados Unidos e se opõem ao país chinês.
Não bastasse a postura incoerente de Eduardo Bolsonaro, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, utilizou-se de suas redes sociais e da figura do personagem infantil, Cebolinha, para fazer ataques similares à China. Em seu Twitter, Weintraub deu a entender que a China se beneficiaria da pandemia do Coronavírus, utilizando novamente da cultura para expor linhas de pensamentos racistas e orientalistas. Foram, até o momento, 84.341 casos confirmados e 4.643 mortes na China para o novo coronavírus, enquanto políticos brasileiros, como os mencionados, contraem “vírus mental”, como dito pela própria embaixada chinesa.
Diante da análise da importância do papel das manifestações culturais e do impacto que a cultura possui nos mais variados setores da vida humana, a pandemia do Novo Coronavírus permite a possibilidade de um novo olhar para tal questão. Nesse momento, cabe a sociedade analisar de forma crítica a importância que tais atividades possuem no seu dia a dia e principalmente, o impacto que a falta de conscientização da existência de um “outro” - que se manifesta de formas diferentes do “eu” - pode gerar em âmbitos políticos e econômicos.
REFERÊNCIAS
‘Gatonet de lives’ engana fãs de sertanejos e rouba doações de combate ao coronavírus. Braulio Lorentz. Disponível em: https://g1.globo.com/pop-arte/musica/noticia/2020/04/23/gatonet-de-lives-engana-fas-de-sertanejos-e-rouba-doacoes-de-combate-ao-coronavirus.ghtml. Acesso em 27 de abril de 2020.
Organizada por Lady Gaga, ‘live das lives’ arrecada US$ 127,9 milhões. UOL, em São Paulo. Disponível em: https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2020/04/19/one-world-together-at-home-arrecadacao.htm. Acesso em 27 de abril de 2020.
Impacto do coronavírus na cultura será de mais de R$ 100 bilhões, diz especialista. Clara Balbi. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2020/04/impacto-do-coronavirus-na-cultura-sera-de-mais-de-r-100-bilhoes-diz-especialista.shtml. Acesso em 27 de abril de 2020
ITAMARATY. Diplomacia Cultural e Educacional. Disponível em: http://www.itamaraty.gov.br/pt-BR/diplomacia-cultural-mre/19484-diplomacia-cultural. Acesso em: 28 abr. 2020.
SAID, Edward W.. Orientalismo: O Oriente como invenção do Ocidente. 1 ed. SP: Companhia das Letras, 2007.
MARTINS, Estevão de Rezende. Cultura e Poder. Instituto Brasileiro de Relações Internacionais, São Paulo, v. 2, n. 2, p. 29-50, 2007.
WAGNER, Roy. A invenção da cultura. São Paulo: Cosac Naify, 2010 [1975].





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