Desvalorização da Ciência
- GEPESOI

- 4 de dez. de 2020
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Atualizado: 8 de dez. de 2020
Pós-verdade
A busca pela verdade sempre foi o centro do desenvolvimento do conhecimento, e, na era moderna, no desenvolvimento da ciência. O que pode ser considerado como verdade também sempre foi muito debatido, visto que há sempre algo mais para se conhecer, e podem haver diferentes interpretações de um mesmo fato ou evento.
Porém, por mais que o relativismo seja, então, algo debatido já há muito tempo, por que agora isso se torna extremamente preocupante?
Cunhada e eleita a palavra do ano pelo dicionário Oxford em 2016, o termo “pós-verdade” é um neologismo que descreve a situação na qual, na hora de criar e modelar a opinião pública, os fatos objetivos têm menos influência que os apelos às emoções e às crenças pessoais.
Há uma diferença entre negar a verdade e ter diferentes interpretações de um fato. Por exemplo, Brasil e Paraguai têm visões muito distintas acerca da Guerra do Paraguai, porém nenhuma das partes nega a sua existência. Assim, o que se torna alarmante na modernidade é justamente a negação dos fatos, como o questionamento da eficácia da vacina, ou da ocorrência do aquecimento global, assim como outros movimentos que vemos surgir ao longo da última década, os quais serão explorados ainda neste texto.
Também vale mencionar o afastamento da comunidade científica da sociedade, que acentua a deslegitimidade que recai sobre o próprio espaço universitário, alvo de cortes de verbas e diversas críticas como o olhar para os docentes como “doutrinadores”, ou até os discentes como “balbúrdia”.
Além disso, ao tratar-se de pós-verdade, cabe mencionar duas coisas que a acompanham: a descrença jornalística e a polarização política e ideológica. Muito intensificadas pelas fake news, pelas bolhas virtuais e especialmente por um fenômeno que é tanto intensificador desse cenário quanto fruto dele: o enfraquecimento das democracias.
A ciência e a democracia juntas são os pilares do mundo moderno, assim como o absolutismo e a religiosidade eram do Antigo Regime. Ciência e democracia se retroalimentam, e a fragilização de uma leva também à fragilização da outra.
Isso pode ser até evidenciado nos regimes autoritários da segunda guerra mundial, em especial o nazismo, que utilizou como uma de suas principais estratégias de propaganda a disseminação de distorções e mentiras. Como fica mutio claro na frase muito conhecida de Joseph Goebbels, ministro da propaganda na Alemanha Nazista, "Uma mentira dita mil vezes torna-se verdade".
Tanto para se fazer ciência quanto para se fazer democracia é preciso se ter um espaço aberto ao diálogo e ao questionamento. Como postulava Popper, a ciência só se constrói a partir da crítica, ou Adorno, que mostra que para o desenvolvimento do conhecimento é preciso manter o olhar criativo (a busca pelo diferente); o mesmo vale para a democracia.
Ainda, um espaço em que a verdade é posta em segundo plano por achismos e o conhecimento deixa de se desenvolver, as críticas e questionamentos também são negligenciados e evitados, e sem eles não há mudança e desenvolvimento. Chega a ser um velho clichê dentro da ciência política, de que corpos sem acesso a conhecimento seriam mais fácil de manipular e manter sob controle. Entretanto, essa é uma realidade que se tem tornado cada vez mais próxima, e portanto é essencial manter isso em debate.

Fake News
A presença das fake news no cenário social modificou relações e trouxe a elas uma visão diferente da habitual, visão essa que pode ser explorada para que seja possível se entender os impactos da era da pós-verdade no campo acadêmico.
Pensava-se, por muito tempo, que o território científico estava imune às crendices e aspectos subjetivos que assolam outras áreas. Porém, vários processos abalaram esse pensamento, o que pode ser facilmente confirmável com as inúmeras notícias e disparos de informações que, após checadas, podem ser facilmente desmentidas.
Dentre os motivos para a propagação de notícias falsas, estão os mais variados: a inocência de jornalistas, que podem cometer erros por desconhecerem o assunto científico tratado, até mesmo os erros grosseiros e deliberadamente falsos das notícias fabricadas com a intenção de confundir e gerar instabilidade ou caos. Além de um dos principais, que é o sensacionalismo.
Deter a informação sempre foi uma arma para o controle e para manter o poder, porém os avanços dos meios virtuais como forma de propagação de notícias (o que antes era monopólio da mídia), popularizou o compartilhamento de materiais. Assim, a facilidade para a circulação de conteúdo com intenções maliciosas aumentou muito.
Assim, há também que se debater o porquê de as fake news serem tão compartilháveis e tão populares socialmente. Os fatos podem ser negativos ou positivos, e, por isso, podem desagradar. O que diferencia o pensamento racional do emotivo é o que fazer com essa decepção, aceitá-la ou negá-la.
Há inúmeros exemplos do quão prejudiciais às fake news podem ser em um cenário mais amplo, como pode-se citar: a queda na imunização contra o HPV por notícias sugerindo que sua vacina poderia causar tetraplegia, além do movimento anti-vacina como um todo.

Movimento Antivacina
Em meio a esse cenário caótico vivenciado pelo mundo, com a pandemia do novo coronavírus, em que a corrida pela vacina está cotidianamente inserida em matérias de jornais devido à urgência demandada pela situação, é surpreendente perceber que os movimentos antivacina se perpetuam, e que inúmeros indivíduos não pretendem vacinar-se contra a Covid-19.
A iniciativa contra a vacinação teve início em 1998, quando um artigo publicado na revista Lancet associou a inoculação da tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) com o surgimento do autismo em crianças. Contudo, o trabalho foi comprovado falso pelo General Medical Council (Conselho Geral de Medicina) inglês após análise - e, apesar disso, perpetuam-se as dúvidas acerca da importância da vacinação.
O movimento chegou a ser listado pela OMS, em 2019, como uma ameaça à saúde global, algo coerente, visto que, ao contrário do terraplanismo, capaz de soar engraçado aos ouvidos e inocente - no sentido de não colocar em risco vital os demais indivíduos-, a decisão tomada por alguns pais de não vacinar seus filhos permite que doenças consideradas erradicadas tornem a surgir, expondo toda a população de determinada área ao risco de contaminação. A Europa, por exemplo, teve seus casos de sarampo elevados em 400% de 2016 para 2017, segundo a revista Superinteressante.
Ainda segundo dados dela, antes de as vacinas serem inventadas, a mortalidade infantil era de 30%. Em 2015, porém, ela chegava a 4,3%, ou seja, a cada 100 crianças, apenas quatro morriam antes de completar cinco anos completos.
No Brasil, país que sempre foi referência mundial em vacinação pública, uma pesquisa da Faculdade São Leopoldo Mandic em parceria com a London School of Hygiene and Tropical Medicine indicou que 4,5% dos pais entrevistados se recusaram a vacinar suas crianças, e outros 16,5% tinham receio, ou não achavam que a imunização tinha qualquer importância para a saúde de seus filhos. Em uma nação onde o último diagnóstico de poliomielite foi feito em 1990 e a possível erradicação do sarampo estava próxima, é preocupante observar tamanho regresso em questão de saúde pública - algo fortemente atrelado à desvalorização da ciência, que sofreu diversos ataques durante a campanha e governo de Jair Bolsonaro. Em 2018, o índice de crianças com menos de um ano vacinadas contra sarampo ficou entre 71% e 84%, quando deveria ter sido de 95%.
É importante destacar a Revolta da Vacina de 1904, pois ela pouco se assemelha ao atual cenário brasileiro. À época, a ciência era diferente do presente, e, de fato, menos acreditada. Oswaldo Cruz, dentre outros médicos, detinha uma visão de mundo higienista, inspirada nas metrópoles europeias. Ademais, é válido lembrar que a ciência (a genética e a seleção natural, em especial) era utilizada como justificativa para o racismo, para a consideração do homem como superior à mulher e para impedir a entrada de imigrantes em alguns países - fatos que culminaram, por exemplo, no Holocausto.
É nesse momento que a corrente pós-modernista demonstrou a importância de não se defender a ciência de maneira absoluta e inquestionável, pois muito do que os cientistas defendiam configuravam construções sociais, e não ciência de fato. A ciência pode e deve servir como meio de orientação para um Estado, mas não por ser uma verdade absoluta, e sim por ser capaz de elevar a qualidade de vida.
Assim, vale o adendo, não é a ciência que falha, mas sim o cientista, sim o modo que ela é utilizada. E isso é preocupante, especialmente ao se tratar de uma situação como a que estamos vivendo, de pandemia, situação em que a ciência deveria estar no apogeu de sua valorização, o que não está ocorrendo. Nas Filipinas, por exemplo, o número de pessoas que seguem grupos ou páginas antivacinas no Facebook saltou de 190.000 para cerca de 500.000.
Movimento terraplanista
O movimento terraplanista ganhou força nos últimos três anos. Apesar de ser uma teoria antiga - como podemos perceber na figura de linguagem “os quatro cantos do mundo” -, a teoria terraplanista já foi há muito tempo refutada, entretanto, com o cenário de desvalorização da ciência, o terraplanismo retornou a ser debatido e passou a atuar de forma mais presente na sociedade, inclusive sendo apoiado por figuras públicas.
No Brasil, uma pesquisa realizada em 2019 revelou que mais de 11 milhões de pessoas são adeptas à teoria, uma justificativa apenas baseada na escolaridade de seus adeptos não é suficiente, já que entre os indivíduos que tiveram a oportunidade de frequentar um curso superior, 3% acreditam na verossimidade do movimento.
A confiança na própria ciência está diminuindo, favorecendo o crescimento do descrédito na ciência e nos seus profissionais; as descobertas científicas, não só atuais, mas antigas - como o formato geoide da Terra -, são posto em questionamento. Esse negacionismo, juntamente com as fake news, contribuem para a eleição de governos anti-científicos, cujos repasses monetários tendem a ir cada vez menos para instituições dedicadas ao ensino e às pesquisas.
Descrença no aquecimento global
Para além do terraplanismo e o movimento antivacina, os questionamentos também recaem sobre o aquecimento global. Os efeitos que vê-se atualmente, como o aumento do nível do mar, a instabilidade climática - em muitos locais a falta de definição das estações -, secas e enchentes; contudo, muitos ainda negam a sua existência. Ativistas e Organizações Não Governamentais sofrem com o descaso; como Gretha Thumberg, suas manifestações são vistas como histeria e infantilidade - por ser jovem e mulher - por líderes governamentais. Trump como um exemplo, líder que ainda retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris.
Portanto, não surpreende que essa postura negacionista seja adotada por muitos governos de extrema direita no mundo. Uma vez que é de interesse de empresas e, inclusive, do próprio governo, que as pessoas não acreditem na limitação do planeta. Nos Estados Unidos, Austrália e Reino Unido, é a indústria petrolífera a mais interessada; no Brasil, o agronegócio. Por isso, não é por acaso que o presidente e grande parte dos ministros brasileiros negam responsabilidade por parte deles ou de grandes fazendeiros, nas queimadas que têm acometido, por exemplo, a Amazônia e o Pantanal.
Soma-se a isso, a credibilidade que a religião tem ganhado na vida das pessoas, não deixando de fora o Estado e seus representantes - que, a princípio, é laico. O conhecimento científico e os seus profissionais ficam para trás, uma vez que a sua proximidade com as pessoas não é tão forte quanto a de um líder religioso; cujo relacionamento com seus fiéis permite uma maior credibilidade em sua fala. Isso está profundamente relacionado com o fenômeno da pós-verdade, já que a opinião pública se fixa em juízos de valor e pensamentos individuais, em vez de depositar credibilidade na ciência; afetando toda a sociedade, em seus mais diversos âmbitos.
Imagem de Greta Thumberg em protesto
Autores: Bianca Morales, Leonardo Barbieri, Maria Teresa Ponce e Martina Matsura.
Produtores do vídeo: Amanda Carvalho, Leonardo Paiva, Matheus Novais e Natalia Coyado.
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