top of page

Mentira e Jornalismo, um antagonismo histórico

  • Foto do escritor: GEPESOI
    GEPESOI
  • 5 de abr. de 2021
  • 5 min de leitura

O dia 1° de abril é conhecido pelo mundo todo como o dia da brincadeira, das pegadinhas e das lorotas. Seu nome pode variar entre os países, mas sua essência é basicamente a mesma. A origem dessa data, contudo, é polêmica, já que os historiadores possuem concepções diferentes quando se trata de sua primeira celebração.

Enquanto uns alegam haver evidências de sua comemoração na Idade Média, outros afirmam que sua origem remonta ao século XVI, na França, durante o reinado de Carlos IX, como resultado de uma troca de calendários: do dia 25 de março ao 1° de abril, era comemorado o Ano Novo, mas com a adesão ao calendário gregoriano, a virada do ano passou a ser o que está em vigor atualmente. No entanto, como compreendia uma mudança impactante, muitas pessoas não aderiram de imediato a isso, as que continuavam comemorando as festividades no primeiro dia de abril eram, portanto, chamadas de “bobos de abril”, recebendo presentes peculiares e convites para festas que não aconteceriam. Com isso, a característica de “dia da mentira” se espalhou pelo mundo. A popularização dessa data no Brasil aconteceu no começo do século XIX, em Minas Gerais, quando o periódico “A Mentira” publicou uma notícia, no primeiro dia de abril, de que o imperador D. Pedro II havia morrido, desmentida apenas dois dias depois.

O Dia da Mentira, desse modo, permite a constatação de um paralelo entre as brincadeiras relacionadas à data e as fake news, difundidas pelas plataformas midiáticas e redes sociais. E com a profusão em massa das fake news, todos os dias aparentam ser o dia da mentira. Porém, vale lembrar que, enquanto o Dia da Mentira é composto por brincadeiras mais leves, as fake news denotam certa ameaça à vida social.

A mimetização da notícia pelas fake news gera uma falta de credibilidade à imprensa. À vista disso, ao passo que as fake news ganham mais força e tornam-se um real empecilho para o desenvolvimento pleno das democracias, o jornalismo - julgado como o principal meio de propagação dessas falácias - é constantemente atacado e rotulado como “inimigo do povo”. Tal rotulação, contudo, muitas vezes é empregada por políticos que preferem impor ao público, discursos que são mais convenientes com seus interesses.

Assim, essa desconfiança enfrentada pela mídia tradicional revela os perigos no exercício da prática da profissão. Para tanto, o Dia do Jornalismo, celebrado no dia 7 de abril, seria uma homenagem ao jornalista Giovanni Battista Libero Badaró, fundamental personalidade na Independência do Brasil. Líbero Badaró, assassinado por inimigos políticos em 1830, foi fundador do Observatório Constitucional, que era um jornal independente que noticiava temáticas políticas até então censuradas por D. Pedro I. Grande defensor da liberdade de imprensa, Badaró morreu em virtude de suas denúncias, o que insuflou a crise política, levando à renúncia de D. Pedro I no dia 7 de abril de 1831.

Além disso, ao voltar os olhos para o panorama do governo brasileiro atual, a disseminação indiscriminada e constante de fake news definem em grande parte a base comunicativa do Presidente da República, o qual diversas vezes contribuiu com o espalhamento de inverdades tendo como intuito atacar, defender medidas irresponsáveis e mostrar uma falsa imagem de mudança positiva no território brasileiro. De acordo com a plataforma jornalística Aos Fatos, em 821 dias como presidente, Bolsonaro deu 2668 declarações falsas ou distorcidas, sendo objeto de exposição neste texto alguns desses episódios. Sob esse prisma, ao tratar do tema governo e pandemia, o Presidente Jair Bolsonaro incontáveis vezes discursou de modo descompromissado com a verdade, por exemplo, quando proferiu o seguinte comentário nos dias 16, 17 e 27 de março “O que eu vi até o momento, é que outras gripes mataram mais do que essa [do coronavírus]” - comentário que, de acordo com a ciência e os estudos de inúmeros infectologistas, é falso.

Outro exemplo, agora acerca das medidas de segurança contra a COVID-19, se trata de quando Bolsonaro profere, inicialmente no dia 4 de março de 2021, a seguinte frase: “Desses isolamentos, dessas medidas restritivas com toque de recolher, com supressão do direito de ir e vir, extrapola e muito até mesmo um estado de sítio”, a qual é totalmente falsa, haja vista que as medidas de isolamento social, como o toque de recolher, estão previstas em uma lei federal assinada pelo próprio presidente. Atualmente, no entanto, é possível analisar os discursos do Presidente da República e constatar uma notável mudança de postura, tanto em relação ao vírus quanto às medidas de combate a ele. Algumas dessas mudanças foram em relação à vacina, ao uso de máscara, às medidas restritivas e à preocupação com as vítimas do vírus - mudança essa que torna muitas das falas atuais incompatíveis ou contraditórias com as anteriores.

A disseminação de falas falaciosas não se restringe apenas a questões relacionadas à pandemia de coronavírus. Muitas de suas falas e pronunciamentos mentirosos, adentram o campo diplomático entre o Brasil e outros países com seus respectivos representantes. Assuntos que se relacionam, por exemplo, ao encolhimento do PIB de outros países, foi pauta da seguinte frase proferida pelo presidente em um de seus discursos: "Menos do que nós, apenas China, Estados Unidos e Coreia do Sul. O resto, todos os países encolheram mais do que nós [o PIB]. Entre eles, Inglaterra, França, Itália, todos os demais países." - Essa fala é muito imprecisa, pois aloca o Brasil num posicionamento em que ele não está. Apesar de citar países que tiveram um encolhimento realmente menor que o Brasil, é omitido a real situação e posição do nosso país em face a essa perspectiva, deixando de lado, por exemplo, que este se encontra na 21ª posição do ranking mundial do Produto Interno Bruto (PIB).

Outro exemplo nítido diz respeito à matriz energética brasileira, tendo como comparação os demais países. Essa fala foi feita na plataforma Twitter, uma das principais redes sociais que o atual presidente usa para fins diplomáticos e pessoais, expondo sua opinião muitas vezes de forma irresponsável e precipitada. O tweet do presidente diz o seguinte: “O Brasil tem uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo (...)”. Essa afirmação é mentirosa, tendo em vista que o Brasil ocupa o 36º lugar no ranking mundial, de acordo com o Atlas de Energia de 2018 da Agência Internacional de Energia, colocando o país atrás do Uruguai, Zâmbia e Islândia, por exemplo.


AUTORES: Bianca Poltronieri, Gustavo Castejon, Leonardo R. Paiva e Martina Matsura.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


07 de abril - Dia do Jornalista. Paco Editorial, 07 abr. 2020. Disponível em: https://editorialpaco.com.br/07-de-abril-dia-do-jornalista/. Acesso em: 02 abr. 2021.


PONCHIROLLI, Rafaela. Jornalismo: O que é e qual a sua importância?. Politize, 7 nov. 2019. Disponível em: https://www.politize.com.br/jornalismo/. Acesso em: 02 abr. 2021.


POR que 1º de abril é o dia da mentira?. Superinteressante, 18 abr. 2011. Disponível em: https://super.abril.com.br/historia/por-que-1o-de-abril-e-o-dia-da-mentira/. Acesso em: 1 abr. 2021.


VOCÊ conhece o significado do ‘Dia da mentira’? Saiba as curiosidades. THN1, 1 abr. 2021. Disponível em: https://www.tnh1.com.br/noticia/nid/voce-conhece-o-significado-do-dia-da-mentira-saiba-as-curiosidades/. Acesso em: 1 abr. 2021.


Todas as declarações de Bolsonaro. AOS FATOS. Disponível em: https://www.aosfatos.org/todas-as-declara%C3%A7%C3%B5es-de-bolsonaro/. Acesso em: 3 de abr. de 2021.


Comentários


Unesp - Universidade Estadual Paulista "Julio de Mesquita Filho" 

Gestão Gepesoi 2026

Giovana Machado de Moraes

Marília Zago Kairalla de Queiroz

Rafaela da Silva Moreira

Emannuel Almeida Magalhães

Desenvolvido por Julio Mansano Rodrigues, Giovana Machado de Moraes

bottom of page